04/05/2011 Inclusão Social

A vontade não faltou. As oportunidades sim. Aos 50 anos, Aparecida Siqueira não sabe ler nem escrever. É dona-de-casa, casou ao 12 anos, teve 11 filhos. O marido nunca gostou que saísse de casa. Agora, ele abriu uma exceção.  “Quer estudar vai!”, concedeu.

Aparecida sempre quis. Não vai deixar a chance escapar. Ela é uma das alunas matriculadas no Programa de Alfabetização de Trabalhadores Rurais de Tibiriçá, uma parceria do Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural), Sindicato Rural de Bauru e Secretaria Municipal de Agricultura.

O BOM DIA acompanhou na segunda-feira à noite a primeira aula de Aparecida e de outros sete alunos que enfrentaram o frio e ocuparam a imensa sala de aula localizada no Centro Rural de Tibiriçá. A dona-de-casa tem uma companheira fiel, Bruna, 12, a filha mais nova.

A menina está no quinto ano, quer ser advogada, vive em outro mundo. No universo dela, crianças e adolescentes têm garantido o direito de frequentar uma sala de aula e sonhar com uma profissão.

Bruna assistiu a primeira aula dos adultos. Avisa que estará em todas. E vai ajudar a mãe nas lições de casa. Os olhos brilham quando ouve falar de uma palestra de capacitação profissional marcada para os próximos dias. Ela faz planos para ouvir tudo que puder, aprender o máximo que der.

“Estudar é muito bom”, diz.

Já a vida de Aparecida foi trabalhar, cuidar da casa, do marido e dos filhos, sempre no distrito de Tibiriçá, localizado a 14 quilômetros da região urbana de Bauru.  

Agora, quer sair da escuridão. Pegar um livro e conseguir ler. Na igreja, entender a liturgia das celebrações. Nas ruas, saber o significado das placas, dos anúncios de produtos.

“Hoje pego um papel, olho e não sei o que quer dizer”.

Método /A grade curricular do curso, com duração de um ano, tem leitura, escrita, interpretação de textos e realização das quatro operações matemáticas.  O método seguido é o do educador Paulo Freire, que respeita o universo dos alunos, com o uso de palavras que fazem parte do cotidiano deles.

A professora Diva Maria Ferreira Vicari, chamada por todos de Lia, conquista logo por causa do jeito carinhoso e pela história pessoal. Ela é produtora rural, como os alunos. Também acorda de madrugada para trabalhar, conhece as dores e as delícias da vida no campo.

Sabe que, à noite, bate o cansaço e é preciso ter muita força para encarar ainda mais uma jornada.

“Que bom encontrar essas meninas aqui...”, exclama ao chegar e ver antigas moradoras do distrito.

Uma das “meninas” é Irene Balbino Cosmo, 73, moradora histórica de Tibiriçá. Irene e o marido, José Cosmo, o Baté, 82, comandam o bloco carnavalesco Estrela do Samba, que tem 60 pessoas da família.

Os cabelos brancos do casal são bastante respeitados em Tibiriçá. Irene tem um conselho para os jovens: é preciso ir para a escola, aproveitar a chance de aprender.

“Agora tudo é fácil. Não vai para a escola quem não quer. No meu tempo não tinha essa facilidade”.

Roça /Criada em fazenda, aos 9 anos Irene conheceu a lida na roça. Como outras crianças, via apenas os filhos do administrador terem direito aos estudos na escola, que ficava longe. Eles tinham cavalo para o transporte na estrada de terra, os outros pequenos não.

Agora, a mulher que brilha no Carnaval recebeu o incentivo dos filhos para mudar o destino e aprender a decifrar as letras que a vida toda viu sem entender nada.

“Sempre falei assim: se eu soubesse ler, virava o mundo".

Na escola
O lanche para o primeiro dia de aula  foi caprichado: cachorro-quente, canjica e bolo. O material escolar foi organizado numa mesa perto das carteiras . Os alunos receberam cadernos, lápis, caneta, borracha, régua e cola. As aulas começam às 19h e têm duas horas de duração.

‘Aprendo a andar, depois parto para o mais difícil’
Trinta alunos fizeram matrícula no curso. Oito compareceram no primeiro dia. Entre eles estava Daniel Garcia de Souza, 39, vendedor de salgados.

Ele é mais jovem que a maioria dos. Diferente dos outros, vive na área urbana. Não gosta de falar sobre os motivos que o levaram a ficar fora da escola. Fazem parte do que chama de “recordações tristes do passado”.

O objetivo do vendedor é aprender ler, escrever e conseguir a habilitação para dirigir. Trabalha o dia inteiro e afirma que se esforçará para  frequentar as aulas todas noites da semana.


Problema ainda é considerado grave
O programa de erradicação da pobreza extrema, previsto pelo governo federal, terá como um dos principais objetivos o combate ao analfabetismo

92,6%
Dos analfabetos têm mais de 25 anos

Ler e escrever para melhorar a vida
O fim do analfabetismo é tratado como fundamental pelo governo para que as pessoas retiradas da miséria pelo Bolsa Família conquistem a autonomia e a qualificação profissional

Taxa de analfabetismo é maior na zona rural
Números espantosos motivam o esforço do Senar, com suas parcerias, a promover a alfabetização de trabalhadores rurais adultos: o Brasil ainda possui 14,6 milhões de analfabetos com mais de dez anos de idade no universo de 162 milhões de moradores. Desse total, 5,2 milhões vivem em zonas rurais.

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