Várias leituras para o mesmo fato

Várias leituras para o mesmo fato

A reabertura parcial e gradativa das atividades econômicas em boa parte do Estado de São Paulo, e em especial em Bauru, permite fazer várias leituras.

A primeira delas, mais maliciosa, é que o setor público se rendeu as pesquisas de opinião, e a partir da queda de popularidade, em especial do governador João Doria, entendeu que poderia liberar as atividades econômicas. Isso pode ser constatado quando analisamos cidades que permitiram a volta destas atividades não obedecendo a classificação previamente estabelecida pelo Decreto Estadual, assumindo fase diferente de abertura daquela indicada pelos estudos realizados pela equipe do governo do estado.

Não houve, pelo menos até o momento, nenhum tipo de reação por parte do governo do estado, diferentemente do que vinha sinalizando até então. Se esta premissa for verdadeira, é concluir que o setor público, e o executivo municipal entrou na onda, quisesse comprovar sua tese que o pior está por vir. Seria condenável em todos aspectos.

A outra leitura é: as empresas que reabriram suas portas estão dando show de protocolo. Respeitam o distanciamento, medem temperatura corporal, disponibilizam álcool em gel, exigem uso de máscaras, portanto, ajudam a proteger. Os empresários fizeram efetivamente a lição de casa.

É possível ainda a leitura de que a população, ou parte dela, é irresponsável. Onde já se viu saírem de casa? Neste particular merece um comentário. Como é possível controlar este fluxo? Uma cidade com quase 380 mil habitantes, referência regional no tocante ao comércio, como determinar que somente uma pequena parte iria frequentar as regiões de comércio da cidade?

Avaliar que foi “desobediência” ou “irresponsabilidade” da população é desconhecer a cidade em que mora. Pensamento provinciano sem dúvida. Afinal os comerciantes queiram reabrir suas portas para que? Precisamos de dinheiro para sobreviver, precisam vender, e sem consumidores isso não é possível.

Quem acompanha meus artigos deve se recordar que eu escrevi sobre duas palavras chaves na retomada das atividades econômicas: protocolo e adaptação.  Como colocado, os protocolos estão sendo cumpridos, e a adaptação à nova realidade está em curso, é um processo.

E um olhar final: a população fez sua parte. Uns mais outros menos, mas a quarentena foi verdadeira. Os indicadores econômicos constatam a dimensão do sacrifício de cada um, com queda no nível de atividade econômica e ainda com o crescimento do desemprego (só para citar dois indicadores), mas o setor público não fez sua parte.

Em nível local não tivemos o acréscimo de respiradores, os leitos hospitalares prometidos ainda não estão em operação, o convênio com hospitais privados não foi assinado, portanto, não venham ali na frente, se contaminação e mortes por Covid19 crescerem, transferir responsabilidades.

Cada um pode analisar este momento pelo olhar que quiser, mas a realidade é: a população, o setor privado, a sociedade civil organizada, deram sua dose de sacrifício, para que o setor público, fizesse a lição de casa, mas a constatação é que fez pouco, e o que é pior, muitos políticos, sem escrúpulos, ainda querem tirar vantagem política de uma situação que mexe com a vida das pessoas. O tempo se encarregará de desmascarar aqueles que agiram nesta direção.

Meu olhar é: a realidade está posta e cada um de nós deu sua dose de sacrifício. Não é possível realizar leitura superficial deste momento.  

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru -ACIB. 🌐 www.reinaldocafeo.com.br

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