O samba de muitas notas

O samba de muitas notas

Em 30 de abril próximo passado escrevi neste espaço o artigo intitulado: “Autoridades Públicas no combate a Covid19: samba de uma nota só”, alertando a ausência do uso da visão multidisciplinar no combate a pandemia.

Logo em seguida, no dia primeiro de maio, neste mesmo espaço o Prefeito Clodoaldo Gazetta, retrucou meu artigo publicando o seguinte tema: “pandemia de uma nota só: nego a situação ou acho um culpado?”, justificando todas as medidas tomadas pelo Comitê de Crise da Prefeitura, concluindo que estavam no caminho certo.

O tempo passou. O Comitê de Crise da Prefeitura se isolou. Interrompeu o diálogo com as Entidades representativas do setor privado da cidade. Se distanciou do outro importante Poder, o Legislativo municipal. Tentou estabelecer um “pacto” local, contudo, este “pacto” era unilateral. Não abriu espaço para construção conjunta. Não vingou.

O Prefeito optou por envolver as cidades da região. De pacto municipal introduziu o “pacto regional”, também sem a participação de representantes da sociedade. Na prática se submeteu à vontade do governador do Estado João Doria que tratou desiguais como se fossem iguais.

Resultado: os cidadãos, os empresários, enfim, aqueles que viram seus escassos recursos acabarem, cansaram. Isso tudo potencializado pela demora em dotar a cidade com a infraestrutura adequada para enfrentar o pico da doença, que por sinal, viria em maio, depois em junho e agora sabe-se lá quando.

De promessa em promessa e cada vez mais se distanciando da realidade da cidade, a sociedade reagiu: quando um Poder constituído é omisso, não ouve a voz do povo, um outro Poder age. E foi assim que a Câmara Municipal de Bauru agiu. Assumiu seu papel, e diria até protagonismo, e derrubou o veto do Prefeito no tocante ao Projeto de Lei que flexibiliza as atividades comerciais e de serviços.

Com isso teremos uma Lei Municipal para chamar de nossa (se o Prefeito não a promulgar, o Presidente da Câmara já disse que o fará).

Não obstante o setor privado e parte da sociedade atingirem os seus objetivos não é o momento para comemoração. Não há ganhadores com tudo isso.

O Executivo Municipal reagiu de maneira inadequada ao resultado da votação na Câmara, e divulgou um texto, escrito mais com o fígado do que com o cérebro e, com erros de interpretação da nova Lei, foi obrigado a retirar a publicação das redes sociais. Mas isso não impediu a reação da Câmara de Bauru e setores da sociedade, questionando este posicionamento.

Como colocado, não há ganhadores. Todos nós seremos vencedores se escrevermos juntos o “samba de muitas notas”. Isso mesmo.

Se o Executivo Municipal deixar a soberba de lado, e aprender com seus erros, abrirá o diálogo, tanto com a Câmara Municipal, como com as Entidades Representativas do setor privado. Deixando diferenças de lado, definirão modelos, regulamentos, para que, tendo agora uma Lei Municipal, não ficar mais subordinado as decisões questionáveis do governo estadual.

Queremos manter o combate a Covid19, mas não queremos errar mais. Queremos que, passados mais de 100 dias do chamado efeito sanfona (abre e fecha), com protocolos rigorosos, possamos laborar, e ao mesmo ampliar a retaguarda sanitária.

E é simples entender tudo isso: não há e não haverá vacinas no curto prazo, portanto, estratégias compartilhadas podem apontar resultados melhores.

Gestão se faz com estratégias e não com raiva e revanchismo. Que possamos escrever juntos o “samba de muitas notas”, todos ganham.

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

🌐 www.reinaldocafeo.com.br

✔ Leia outros artigos como este no blog da ACIB, clicando aqui: https://acib.org.br/blog/

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *