Popularidade: precisamos aprender com a história

Popularidade: precisamos aprender com a história

“O bem que o Estado pode fazer é limitado; o mal, infinito. O que ele pode nos dar é sempre menos do que nos pode tirar.” esta frase do saudoso Economista Roberto Campos retrata bem as discussões presentes na condução do País diante da pandemia do novo coronavírus e mais especificamente no tocante a política fiscal atual.

Não obstante o Presidente da República, Jair Bolsonaro, afirmar que está “fechado” com o teto de gastos, portanto, com o rigor fiscal, é certo que o aumento de sua popularidade recentemente detectado pelos institutos de pesquisas, notadamente junto à população de menor renda, tem despertado em parte de seu Ministério e assessores diretos, aquela tentação de usar os recursos públicos para fins eleitorais, principalmente estendendo para o ano que vem o auxílio emergencial.

Precisamos aprender com a história.

Quem presenciou ou leu como foi o desenrolar do Plano Cruzado em 1986 (plano econômico do Presidente José Sarney, que para combater a inflação, congelou preços e salários) sabe do que estou falando, afinal, este plano deveria ter congelado preços e salários por pequeno período, em seguida revistos, mantendo inflação baixa de forma duradoura, mas a elevada popularidade de Sarney em ano de eleições, o fez arrastar o congelamento por um período elevado, culminando com ganhos eleitorais, a medida que seu partido à época, o PMDB, elegeu 22 dos 23 governadores e uma numerosa bancada no Congresso Nacional (Assembleia Constituinte), mas o preço pago foi elevado.

Os princípios do plano se deterioram, e mesmo editando novos planos econômicos, como o Plano Cruzado 2, Plano Bresser e Plano Verão, o ex-presidente Sarney entregou o País ao seu sucessor, Fernando Collor, com inflação acima de 80% ao mês, ou seja, de inflação de um dígito no início do Cruzado a mais de 80% ao mês depois de 4 anos.

Tivemos assim a chamada “década perdida”.

Evidentemente que não quero dizer que a inflação voltará e que teremos o mesmo ambiente econômico daquele período de Sarney, mas o alerta é: não se governa baseado em pesquisas de popularidade.

É importante considerar que a renda da população mais pobre do País foi afetada. Também é preciso considerar que o auxílio emergencial, é importante até mesmo para sobrevivência de parte da população, mas isso não pode ser por prazo duradouro. É preciso que sejam criadas condições para que o País volte a gerar riqueza (cresça economicamente) retomando os empregos e renda, aí sim, oferecendo vida digna aos trabalhadores brasileiros.

Aqui está o ponto chave: para voltar a crescer economicamente, portanto, como colocado, voltar a gerar emprego e renda não será com aventura fiscal. Gastar mais do que arrecada, gerando déficits, gera desconfiança dos investidores e mais que isso, tem prazo de validade, o desequilíbrio econômico é certo.

Vale lembrar que o presidente Bolsonaro após afirmar durante a disputa eleitoral que não pensava em reeleição e depois disse que poderia até considerar isso, mas que não vivia em função disso, agora passa a impressão que foi “picado” pela mosca do poder e que tudo pode para atingir este objetivo.

Independentemente de quem seja o Ministro da Economia, não haverá matriz econômica consistente, sustentando o crescimento no longo prazo, se não houver compromisso na condução rigorosa das contas públicas.

Nosso passado nos condena e devemos ser sábios para aprender com ele. Como disse Roberto Campos “o bem que o Estado pode fazer é limitado; o mal; infinito”.

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

🌐 www.reinaldocafeo.com.br

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