A realidade de um eleitor bauruense

O economista Reinaldo Cafeo avalia o cenário da cidade para as eleições do segundo turno com o olhar de um eleitor bauruense. Confira!

Antes do primeiro turno das eleições municipais de Bauru eu trouxe a reflexão sobre os desejos de um eleitor bauruense no artigo “sonho de um eleitor bauruense”. Agora, passado o primeiro turno, com a composição da Câmara de vereadores e o segundo turno entre os dois candidatos mais votados para o executivo municipal, é o momento de cair na realidade.

Talvez tenha chegado o momento de baixarmos nossas expectativas. De um lado os munícipes têm muitas demandas, de outro lado será preciso administrar a escassez.

No executivo municipal a escassez estará em todos os campos. O orçamento para 2021 aponta, corretamente, menor nível de arrecadação. Na melhor das hipóteses ficarão dívidas na ordem de R$ 50 milhões a ser equacionadas na próxima legislatura.

Com uma máquina pesada, e com verbas vinculadas, a margem para investimentos, principalmente no primeiro no de mandato será muito pequena. Devemos aqui ficar satisfeitos se ao menos houver foco na manutenção no que já existe.

Também haverá escassez de bons quadros para ocuparem cargos na administração municipal, especialmente técnicos, que irão compor o secretariado o futuro mandato com início em janeiro. Em tempos de redes sociais, em que as Fake News imperam, e ainda o comprometimento patrimonial de quem ocupa cargo público está sujeito, com a exposição pessoal e familiar, tudo isso poderá afugentar àqueles que efetivamente poderiam contribuir para o desenvolvimento da cidade, trazendo sangue novo, motivação, enfim, dedicação sem vícios e pautado em questões técnicas.

Há pontos chaves na gestão pública que precisam de gente com competência acima da média. Provavelmente teremos indicações do que é “possível” em vez do que é o “ideal”, claro, que poderemos ter exceções, mas infelizmente a projeção não é boa.

Com escassez de recursos financeiros e humanos, mesmo contando com a boa vontade dos bons servidores públicos, os de carreira, está mais que evidenciado que a liderança de quem estará à frente do Palácio do Planalto fará toda a diferença. Neste aspecto é importante cada um de nós observar nos atuais postulantes ao cargo no executivo se efetivamente serão os líderes que desejamos.

O choque de realidade vem ainda do fato que muito além de propostas é preciso aprofundar nos temas que precisam de uma solução.  Não é possível, por exemplo, indicar extinção da COHAB, sem analisar o aspecto jurídico. Isso vale para a construtora que executa a Estação de Tratamento de Esgoto.

A realidade nua e crua é que será preciso reinventar o DAE, Emdurb e focar na produtividade das diversas secretarias, caso contrário, a escassez de recursos financeiros e humanos travará a cidade. A realidade é: a máquina pública municipal está emperrada. As Parcerias Público Privadas precisarão sair do papel.

O próprio legislativo municipal precisará de um choque de realidade é: os vereadores eleitos precisarão ir além da política e fazer efetivamente a diferença como político.

Voltando ao executivo municipal, a realidade é esta: ou escolhemos ou seremos escolhidos. Sempre entendi que dificilmente o eleitor muda seu quando seu candidato chega no segundo turno, há raras exceções, mas aqueles que votaram nos candidatos derrotados, escolheriam o de menor rejeição. Não sei se esta será a realidade em Bauru, mas antes de definir seu voto, baixe as expectativas, mantenha o sonho, mas traga tudo para a realidade que nos espera.

Uma cidade é composta por pessoas, instituições, organizações, mas sem dúvida, quem puxa e dá o tom para onde a cidade pode ir e quer chegar é aquele está à frente do executivo municipal, portanto, seu voto é muito mais que valioso. Vale a reflexão: sonhar sim, mas agora é o momento de enfrentar a realidade goste ou não do quadro que aí está.

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

🌐 www.reinaldocafeo.com.br

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A pobreza no Brasil

A pobreza no Brasil

Os dados mais recentes da pobreza e concentração de renda do Brasil são de 2019. O IBGE apurou que 6,5% da população brasileira vive na extrema pobreza, isto é, sobrevivem com menos de 1,9 dólar (aproximadamente R$ 10,00) por dia. Em números absolutos eram 13,6 milhões de brasileiros nesta condição.

O número melhorou em 2019 diante de 2018, não obstante esta melhora, sem dúvida ainda é muito elevado. A melhora dos números em 2019 foi fruto de um mercado de trabalho mais ativo tanto na geração de empregos formais, como nos informais e no trabalho formal por conta própria.

Isso refletiu também na queda do índice de Gini (alusão ao matemático italiano Conrado Gini, que criou a metodologia), que mede concentração e desconcentração de renda. O índice vai de zero a 1. Quanto mais perto de 1, mais concentrada a renda. Quanto mais próximo de zero, menos concentrada a renda. Em 2019 o índice de Gini foi de 0,543 e no anterior 0,545. O menor nível da série histórica foi verificado em 2015 quando atingiu 0,524.

Apesar desta pequena melhora é fato que a pandemia bagunçou tudo. Um País que focaria na questão fiscal, que faria reformas estruturais além da exitosa reforma previdenciária, incluindo melhoria no ambiente de negócios, teria tudo para continuar crescendo, o que é melhor, crescendo sustentadamente. Este ano voltamos à estaca zero, ou melhor, menos que zero.

Sem dúvida a ajuda emergencial para cerca de 66,9 milhões de brasileiros durante a pandemia atenuou os impactos provocados pelo isolamento e distanciamento social, ou seja, a quarentena forçada.

Muitos que lutavam diariamente para conseguir um mínimo para sua sobrevivência e de sua família, passaram a contar com o recurso adicional. Pelo modelo em curso até mesmo quem recebia o auxílio via Bolsa Família observou a renda crescer. Mas para parte da população o auxílio emergencial tem vida útil.

Do ponto de vista fiscal não há fontes de recursos para continuar financiamento este volume de pessoas, mesmo eventualmente sendo necessário. Pode ser Bolsa Família ou Renda Brasil ou Renda Cidadã, seja lá qual o for o nome escolhido, o País e em especial o setor público, terá que apontar como atender as demandas sociais e ao mesmo tempo gerar confiança no tocante ao endividamento público. Não é tarefa fácil.

Sem dúvida alguma o melhor remédio para equacionar tudo isso é o País voltar a crescer e de maneira sustentada. Fora isso serão sempre paliativos que somente adiarão o enfrentamento dos problemas sociais do Brasil.

Neste contexto há um conflito: os sinais da economia têm que ser no caminho da austeridade fiscal e com ela virão os investimentos produtivos que permitirão o crescimento econômico e geração de emprego e renda, e na outra ponta, até que isso ocorra, será preciso ampliar o volume de recursos para atender, via transferência de renda, os mais pobres.

Passou da hora de tornar público e com a maior clareza possível quais as estratégias que o governo Federal apresentará para o encaminhamento destas questões.

Se 2019 tivemos melhora nos indicadores sociais, se 2020 o auxílio emergencial evitou a deterioração destes indicadores, agora é hora de indicar caminhos para que 2021 não seja o ano do aumento dos miseráveis no Brasil.

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

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Sonho de um eleitor bauruense

Sonho de um eleitor

Eu sonhei com as eleições municipais. Sonhei que os eleitos para governar a cidade nos próximos quatro anos se debruçariam para estabelecer um planejamento estratégico de curto, médio e longo prazos. Neste sonho seria traçado o mapa estratégico, a análise do ambiente interno e externo, e teríamos um mapa de indicadores de desempenho. Meu sonho viu as propostas do CODESE norteando o planejamento de longo prazo da cidade. Neste particular sonhei com o Instituto de Planejamento.

Também sonhei que os novos administradores da cidade estabeleceriam juntamente com sua equipe, planos de ação, nos quais seria dada publicidade do que pretendiam realizar, por quê iriam fazer, quem iria realizar, em qual prazo e quanto seria o custo/benefício daquela ação. No sonho minha imaginação foi tão fértil que vislumbrei tudo isso sendo controlado em tempo real, com a acesso irrestrito aos cidadãos.

Sonhei que os novos dirigentes da nossa cidade tinham finalmente traçado um plano consistente para equacionar o problema da COHAB. Neste sonho vislumbrei um trabalho que apontasse legalmente qual é o melhor formato para liquidar a Companhia e qual a estrutura mínima, menos onerosa, para que isso fosse cumprido. Meu sonho foi além, imaginou um profissional liquidante, apolítico, apartidário e focado nos resultados que mais favorecessem a cidade.

Foi um sonho longo, confesso, nele eu via um DAE administrado por um técnico que inicialmente reestruturasse a gestão da autarquia, também com indicadores. No sonho veio até o plano de águas, inclusive com os passos a serem seguidos para reduzir a perda de água no sistema e ainda o DAE dando publicidade de qual cronograma irá cumprir durante os quatro anos e qual legado deixará para o próximo gestor da cidade. Vi o DAE com um plano para a estação de tratamento de esgoto.

Nele estabelecia um grupo gestor da atual obra, com profissionais multidisciplinares, com acompanhamento diário do cronograma e a população podendo acompanhar o andamento do mesmo em tempo real. Tinha até a data de inauguração – dezembro de 2021, e mais importante o DAE: já tinha enviado projeto para gestão futura da estação. 

O sonho foi além: reinventou a Emdurb. Ela passou a ser enxuta, produtiva, e pasmem, prestando serviços a terceiros. Sonhei que a tecnologia da informação seria prioridade da gestão pública. Todos os sistemas de informática interligados, com BI (Business  Intelligence) fazendo o cruzamento das informações.

Sonhei com a criação do fundo para abrigar as contrapartidas dos empreendimentos e um comitê que traçasse as prioridades para uso desse dinheiro. Sonhei que a área central teria foco em assentamento humano e que finalmente teríamos um centro da cidade a altura da representatividade da cidade na região.

Falando em região me lembrei que sonhei com a usina regional de tratamento de lixo. Sonhei que a SEBES teria não somente o cadastro detalhado dos vulneráveis, como também trabalharia com indicadores que permitissem a mobilidade social. Sonhei que nossas escolas estavam equipadas com o que é de mais moderno para o ensino/aprendizagem. Sonhei com o uma Secretaria de Desenvolvimento Econômico focada em ciência, tecnologia e inovação. Sonhei com os convênios com as universidades locais.

Sonhei que o atendimento de saúde a população estava impecável. Que foram firmados convênios com a iniciativa privada e tudo que o setor público não fosse capaz de atender, este convênio atenderia.

Sonhei que os cidadãos teriam em suas mãos um aplicativo que seria o canal direto com a prefeitura, gerando suas demandas, com controle em um grande painel. Sonhei que todas as secretarias estariam integradas e houve aumento na arrecadação porque finalmente fomos eficientes na arrecadação tributária. Sonhei que as pessoas estariam abertas a discutir custo/benefício das Parcerias Público Privadas, sonhei ainda que o legislativo municipal seria independente, fiscalizador e que nosso conjunto de leis fosse atualizada.

Sonhei com tanta coisa, que faltou espaço para escrever, mas me lembro que antes de acordar o sonho indicou que meu desejo é que o novo comandante da cidade fosse uma pessoa proba, aberta ao diálogo, sem vaidades, e com perfil gestor, que governasse para todos, e tivesse a sensibilidade para atender os mais necessitados e se possível sem pensar em reeleição.

Agora rezo para que meu sonho se torne realidade. Quem sonhou ao menos parte do que eu sonhei?

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

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Desemprego: analisar o “filme” e não o “retrato”

Desemprego

Os dados mais recentes no tocante ao emprego e desemprego no Brasil trazem em uma primeira análise resultados conflitantes.

Dados do CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), divulgados pelo Ministério da Economia, apontam para o melhor setembro em criação de emprego com carteira assinada em 29 anos. O saldo entre admissões e demissões foi positivo em 313.564 vagas. São três meses de resultados positivos.

Por outro lado, a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), cuja divulgação é do IBGE, trouxe o maior nível de desempregados em sua série histórica iniciada em 2012: taxa de 14,4% da população economicamente ativa no trimestre fechado em agosto deste ano. São 13,8 milhões de brasileiros em busca de um emprego, representando alta de 8,5% sobre o trimestre anterior.

Aqui que entra a análise do “filme” e não do “retrato”. O primeiro ponto a ser considerado é que as pesquisas estão em tempos diferentes. Enquanto a Pnad Contínua carrega números de junho, julho e agosto, portanto, refletem ainda parte da quarentena imposta pelos agentes políticos, o CAGED traz números mais recentes, de setembro, momento de recuperação da economia nacional, principalmente devido a retomada das atividades produtivas.

Não obstante esta leitura, é fundamental entender o que cada pesquisa reflete. O CAGED tem foco na formalidade. Por este prisma, após a pandemia forçar o fechamento de inúmeras empresas, àquelas que “sobreviveram” precisam repor sua força de trabalho à medida que tanto o mercado interno como externo ampliaram a demanda.

Uma empresa que operou no pior momento no nível mínimo de funcionários, acaba sendo forçada a repor esta mão de obra, que por sinal, é qualificada e abundante. De um lado não demitem e de outro lado contratam, o resultado não poderia ser outro, saldo positivo para contratações.

Já a Pnad Contínua captura a movimentação do mercado de trabalho. As pessoas até então desalentadas (as que não realizaram até então nenhum esforço em buscar um emprego, quer porque têm receio em contrair o vírus da Covid19, quer porque cansaram de procurar emprego sem sucesso e até mesmo por falta de recursos para se deslocar em busca de uma colocação) agora se lançam no mercado de trabalho. Estão aptas e dispostas a trabalhar, portanto, são considerados economicamente ativos, mas não encontram vagas no mercado de trabalho.

O universo do mercado de trabalho é amplo e não restrito àqueles que conseguem registro em carteira, foco do CAGED. Há os ocupados via informalidade. Há os que abriram suas MEIs. Há os subempregados (que querem trabalhar mais horas). Há ainda, como colocado, os desalentados.

O “filme” da redução do desemprego está distante de ser alcançado. A forte geração de riqueza vem do setor privado através dos investimentos produtivos, e em tempos de incertezas, o apetite em canalizar recursos nesta direção é menor e ainda seletivo.

Assim que o Brasil se concentrar novamente nos grandes temas que sustentarão o crescimento econômico de longo prazo, principalmente no tocante ao rigor fiscal via reformas estruturais, o emprego voltará. Até que isso efetivamente ocorra, conviveremos com sinais que aparentam ser invertidos, mas que na prática retratam uma única realidade: milhões de brasileiros terão que esperar uma longa fila para sua recolocação no mercado de trabalho.

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

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