A pobreza no Brasil

A pobreza no Brasil

Os dados mais recentes da pobreza e concentração de renda do Brasil são de 2019. O IBGE apurou que 6,5% da população brasileira vive na extrema pobreza, isto é, sobrevivem com menos de 1,9 dólar (aproximadamente R$ 10,00) por dia. Em números absolutos eram 13,6 milhões de brasileiros nesta condição.

O número melhorou em 2019 diante de 2018, não obstante esta melhora, sem dúvida ainda é muito elevado. A melhora dos números em 2019 foi fruto de um mercado de trabalho mais ativo tanto na geração de empregos formais, como nos informais e no trabalho formal por conta própria.

Isso refletiu também na queda do índice de Gini (alusão ao matemático italiano Conrado Gini, que criou a metodologia), que mede concentração e desconcentração de renda. O índice vai de zero a 1. Quanto mais perto de 1, mais concentrada a renda. Quanto mais próximo de zero, menos concentrada a renda. Em 2019 o índice de Gini foi de 0,543 e no anterior 0,545. O menor nível da série histórica foi verificado em 2015 quando atingiu 0,524.

Apesar desta pequena melhora é fato que a pandemia bagunçou tudo. Um País que focaria na questão fiscal, que faria reformas estruturais além da exitosa reforma previdenciária, incluindo melhoria no ambiente de negócios, teria tudo para continuar crescendo, o que é melhor, crescendo sustentadamente. Este ano voltamos à estaca zero, ou melhor, menos que zero.

Sem dúvida a ajuda emergencial para cerca de 66,9 milhões de brasileiros durante a pandemia atenuou os impactos provocados pelo isolamento e distanciamento social, ou seja, a quarentena forçada.

Muitos que lutavam diariamente para conseguir um mínimo para sua sobrevivência e de sua família, passaram a contar com o recurso adicional. Pelo modelo em curso até mesmo quem recebia o auxílio via Bolsa Família observou a renda crescer. Mas para parte da população o auxílio emergencial tem vida útil.

Do ponto de vista fiscal não há fontes de recursos para continuar financiamento este volume de pessoas, mesmo eventualmente sendo necessário. Pode ser Bolsa Família ou Renda Brasil ou Renda Cidadã, seja lá qual o for o nome escolhido, o País e em especial o setor público, terá que apontar como atender as demandas sociais e ao mesmo tempo gerar confiança no tocante ao endividamento público. Não é tarefa fácil.

Sem dúvida alguma o melhor remédio para equacionar tudo isso é o País voltar a crescer e de maneira sustentada. Fora isso serão sempre paliativos que somente adiarão o enfrentamento dos problemas sociais do Brasil.

Neste contexto há um conflito: os sinais da economia têm que ser no caminho da austeridade fiscal e com ela virão os investimentos produtivos que permitirão o crescimento econômico e geração de emprego e renda, e na outra ponta, até que isso ocorra, será preciso ampliar o volume de recursos para atender, via transferência de renda, os mais pobres.

Passou da hora de tornar público e com a maior clareza possível quais as estratégias que o governo Federal apresentará para o encaminhamento destas questões.

Se 2019 tivemos melhora nos indicadores sociais, se 2020 o auxílio emergencial evitou a deterioração destes indicadores, agora é hora de indicar caminhos para que 2021 não seja o ano do aumento dos miseráveis no Brasil.

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

🌐 www.reinaldocafeo.com.br

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Sonho de um eleitor bauruense

Sonho de um eleitor

Eu sonhei com as eleições municipais. Sonhei que os eleitos para governar a cidade nos próximos quatro anos se debruçariam para estabelecer um planejamento estratégico de curto, médio e longo prazos. Neste sonho seria traçado o mapa estratégico, a análise do ambiente interno e externo, e teríamos um mapa de indicadores de desempenho. Meu sonho viu as propostas do CODESE norteando o planejamento de longo prazo da cidade. Neste particular sonhei com o Instituto de Planejamento.

Também sonhei que os novos administradores da cidade estabeleceriam juntamente com sua equipe, planos de ação, nos quais seria dada publicidade do que pretendiam realizar, por quê iriam fazer, quem iria realizar, em qual prazo e quanto seria o custo/benefício daquela ação. No sonho minha imaginação foi tão fértil que vislumbrei tudo isso sendo controlado em tempo real, com a acesso irrestrito aos cidadãos.

Sonhei que os novos dirigentes da nossa cidade tinham finalmente traçado um plano consistente para equacionar o problema da COHAB. Neste sonho vislumbrei um trabalho que apontasse legalmente qual é o melhor formato para liquidar a Companhia e qual a estrutura mínima, menos onerosa, para que isso fosse cumprido. Meu sonho foi além, imaginou um profissional liquidante, apolítico, apartidário e focado nos resultados que mais favorecessem a cidade.

Foi um sonho longo, confesso, nele eu via um DAE administrado por um técnico que inicialmente reestruturasse a gestão da autarquia, também com indicadores. No sonho veio até o plano de águas, inclusive com os passos a serem seguidos para reduzir a perda de água no sistema e ainda o DAE dando publicidade de qual cronograma irá cumprir durante os quatro anos e qual legado deixará para o próximo gestor da cidade. Vi o DAE com um plano para a estação de tratamento de esgoto.

Nele estabelecia um grupo gestor da atual obra, com profissionais multidisciplinares, com acompanhamento diário do cronograma e a população podendo acompanhar o andamento do mesmo em tempo real. Tinha até a data de inauguração – dezembro de 2021, e mais importante o DAE: já tinha enviado projeto para gestão futura da estação. 

O sonho foi além: reinventou a Emdurb. Ela passou a ser enxuta, produtiva, e pasmem, prestando serviços a terceiros. Sonhei que a tecnologia da informação seria prioridade da gestão pública. Todos os sistemas de informática interligados, com BI (Business  Intelligence) fazendo o cruzamento das informações.

Sonhei com a criação do fundo para abrigar as contrapartidas dos empreendimentos e um comitê que traçasse as prioridades para uso desse dinheiro. Sonhei que a área central teria foco em assentamento humano e que finalmente teríamos um centro da cidade a altura da representatividade da cidade na região.

Falando em região me lembrei que sonhei com a usina regional de tratamento de lixo. Sonhei que a SEBES teria não somente o cadastro detalhado dos vulneráveis, como também trabalharia com indicadores que permitissem a mobilidade social. Sonhei que nossas escolas estavam equipadas com o que é de mais moderno para o ensino/aprendizagem. Sonhei com o uma Secretaria de Desenvolvimento Econômico focada em ciência, tecnologia e inovação. Sonhei com os convênios com as universidades locais.

Sonhei que o atendimento de saúde a população estava impecável. Que foram firmados convênios com a iniciativa privada e tudo que o setor público não fosse capaz de atender, este convênio atenderia.

Sonhei que os cidadãos teriam em suas mãos um aplicativo que seria o canal direto com a prefeitura, gerando suas demandas, com controle em um grande painel. Sonhei que todas as secretarias estariam integradas e houve aumento na arrecadação porque finalmente fomos eficientes na arrecadação tributária. Sonhei que as pessoas estariam abertas a discutir custo/benefício das Parcerias Público Privadas, sonhei ainda que o legislativo municipal seria independente, fiscalizador e que nosso conjunto de leis fosse atualizada.

Sonhei com tanta coisa, que faltou espaço para escrever, mas me lembro que antes de acordar o sonho indicou que meu desejo é que o novo comandante da cidade fosse uma pessoa proba, aberta ao diálogo, sem vaidades, e com perfil gestor, que governasse para todos, e tivesse a sensibilidade para atender os mais necessitados e se possível sem pensar em reeleição.

Agora rezo para que meu sonho se torne realidade. Quem sonhou ao menos parte do que eu sonhei?

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

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Desemprego: analisar o “filme” e não o “retrato”

Desemprego

Os dados mais recentes no tocante ao emprego e desemprego no Brasil trazem em uma primeira análise resultados conflitantes.

Dados do CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), divulgados pelo Ministério da Economia, apontam para o melhor setembro em criação de emprego com carteira assinada em 29 anos. O saldo entre admissões e demissões foi positivo em 313.564 vagas. São três meses de resultados positivos.

Por outro lado, a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), cuja divulgação é do IBGE, trouxe o maior nível de desempregados em sua série histórica iniciada em 2012: taxa de 14,4% da população economicamente ativa no trimestre fechado em agosto deste ano. São 13,8 milhões de brasileiros em busca de um emprego, representando alta de 8,5% sobre o trimestre anterior.

Aqui que entra a análise do “filme” e não do “retrato”. O primeiro ponto a ser considerado é que as pesquisas estão em tempos diferentes. Enquanto a Pnad Contínua carrega números de junho, julho e agosto, portanto, refletem ainda parte da quarentena imposta pelos agentes políticos, o CAGED traz números mais recentes, de setembro, momento de recuperação da economia nacional, principalmente devido a retomada das atividades produtivas.

Não obstante esta leitura, é fundamental entender o que cada pesquisa reflete. O CAGED tem foco na formalidade. Por este prisma, após a pandemia forçar o fechamento de inúmeras empresas, àquelas que “sobreviveram” precisam repor sua força de trabalho à medida que tanto o mercado interno como externo ampliaram a demanda.

Uma empresa que operou no pior momento no nível mínimo de funcionários, acaba sendo forçada a repor esta mão de obra, que por sinal, é qualificada e abundante. De um lado não demitem e de outro lado contratam, o resultado não poderia ser outro, saldo positivo para contratações.

Já a Pnad Contínua captura a movimentação do mercado de trabalho. As pessoas até então desalentadas (as que não realizaram até então nenhum esforço em buscar um emprego, quer porque têm receio em contrair o vírus da Covid19, quer porque cansaram de procurar emprego sem sucesso e até mesmo por falta de recursos para se deslocar em busca de uma colocação) agora se lançam no mercado de trabalho. Estão aptas e dispostas a trabalhar, portanto, são considerados economicamente ativos, mas não encontram vagas no mercado de trabalho.

O universo do mercado de trabalho é amplo e não restrito àqueles que conseguem registro em carteira, foco do CAGED. Há os ocupados via informalidade. Há os que abriram suas MEIs. Há os subempregados (que querem trabalhar mais horas). Há ainda, como colocado, os desalentados.

O “filme” da redução do desemprego está distante de ser alcançado. A forte geração de riqueza vem do setor privado através dos investimentos produtivos, e em tempos de incertezas, o apetite em canalizar recursos nesta direção é menor e ainda seletivo.

Assim que o Brasil se concentrar novamente nos grandes temas que sustentarão o crescimento econômico de longo prazo, principalmente no tocante ao rigor fiscal via reformas estruturais, o emprego voltará. Até que isso efetivamente ocorra, conviveremos com sinais que aparentam ser invertidos, mas que na prática retratam uma única realidade: milhões de brasileiros terão que esperar uma longa fila para sua recolocação no mercado de trabalho.

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

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