Desemprego

Desemprego: analisar o “filme” e não o “retrato”

Os dados mais recentes no tocante ao emprego e desemprego no Brasil trazem em uma primeira análise resultados conflitantes.

Dados do CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), divulgados pelo Ministério da Economia, apontam para o melhor setembro em criação de emprego com carteira assinada em 29 anos. O saldo entre admissões e demissões foi positivo em 313.564 vagas. São três meses de resultados positivos.

Por outro lado, a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), cuja divulgação é do IBGE, trouxe o maior nível de desempregados em sua série histórica iniciada em 2012: taxa de 14,4% da população economicamente ativa no trimestre fechado em agosto deste ano. São 13,8 milhões de brasileiros em busca de um emprego, representando alta de 8,5% sobre o trimestre anterior.

Aqui que entra a análise do “filme” e não do “retrato”. O primeiro ponto a ser considerado é que as pesquisas estão em tempos diferentes. Enquanto a Pnad Contínua carrega números de junho, julho e agosto, portanto, refletem ainda parte da quarentena imposta pelos agentes políticos, o CAGED traz números mais recentes, de setembro, momento de recuperação da economia nacional, principalmente devido a retomada das atividades produtivas.

Não obstante esta leitura, é fundamental entender o que cada pesquisa reflete. O CAGED tem foco na formalidade. Por este prisma, após a pandemia forçar o fechamento de inúmeras empresas, àquelas que “sobreviveram” precisam repor sua força de trabalho à medida que tanto o mercado interno como externo ampliaram a demanda.

Uma empresa que operou no pior momento no nível mínimo de funcionários, acaba sendo forçada a repor esta mão de obra, que por sinal, é qualificada e abundante. De um lado não demitem e de outro lado contratam, o resultado não poderia ser outro, saldo positivo para contratações.

Já a Pnad Contínua captura a movimentação do mercado de trabalho. As pessoas até então desalentadas (as que não realizaram até então nenhum esforço em buscar um emprego, quer porque têm receio em contrair o vírus da Covid19, quer porque cansaram de procurar emprego sem sucesso e até mesmo por falta de recursos para se deslocar em busca de uma colocação) agora se lançam no mercado de trabalho. Estão aptas e dispostas a trabalhar, portanto, são considerados economicamente ativos, mas não encontram vagas no mercado de trabalho.

O universo do mercado de trabalho é amplo e não restrito àqueles que conseguem registro em carteira, foco do CAGED. Há os ocupados via informalidade. Há os que abriram suas MEIs. Há os subempregados (que querem trabalhar mais horas). Há ainda, como colocado, os desalentados.

O “filme” da redução do desemprego está distante de ser alcançado. A forte geração de riqueza vem do setor privado através dos investimentos produtivos, e em tempos de incertezas, o apetite em canalizar recursos nesta direção é menor e ainda seletivo.

Assim que o Brasil se concentrar novamente nos grandes temas que sustentarão o crescimento econômico de longo prazo, principalmente no tocante ao rigor fiscal via reformas estruturais, o emprego voltará. Até que isso efetivamente ocorra, conviveremos com sinais que aparentam ser invertidos, mas que na prática retratam uma única realidade: milhões de brasileiros terão que esperar uma longa fila para sua recolocação no mercado de trabalho.

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

🌐 www.reinaldocafeo.com.br

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