Juros e inflação

Juros e inflação

Com alta de 0,31% em abril, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), inflação oficial do País, acumula no ano 2,37% e em 12 meses 6,76%. Vale lembrar que o Banco Central fixou como meta 3,75% para este ano e esta não será cumprida.

Apesar de a inflação atual ter característica de inflação de oferta, ou seja, aumentos de custos repassados aos preços, o Banco Central optou por atacar a demanda. Abriu mão da política monetária mais frouxa, iniciando o aperto monetário. A taxa básica de juros está em 3,5% ao ano, saindo de menor marca histórica que era de 2% ao ano. Promoveu duas altas consecutivas. E o Banco Central sinaliza com nova alta na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM) que se dará em junho, o que elevará a taxa Selic para 4,25% ao ano.

Apesar de os juros atacarem mais a inflação de demanda do que a inflação de oferta, juros maiores têm alguns efeitos importantes para o controle inflacionário. O primeiro efeito, quando não há outras variáveis influenciando, é aumentar o fluxo de moeda estrangeira no País. Aplicar em papéis do governo fica mais atrativo, principalmente quando o investidor combina taxa de câmbio de entrada e de saída com juros maiores (apesar de ainda perderem para inflação).

No caso do dólar, há ampliação da oferta, derrubando sua cotação. Dólar desvalorizado frente ao Real, menor pressão sobre os custos das empresas, notadamente dos insumos e matérias-primas que de alguma maneira são indexadas a moeda norte-americana.

Juros maiores também atingem o psicológico do consumidor. Quem tem excedentes financeiros, ao constarem que a taxa de juros subiu tendem a adiar o consumo, aplicando seus recursos. Na outra ponta, aquele que usa o crédito para adquirir bens, contando com a renda futura, tendem a se retrair. Ambos os comportamentos tendem a derrubar os preços dos produtos financiáveis, o que podem neutralizar ou reduzir o impacto da alta de preços de bens de consumo imediato, como os alimentos.

Tudo isso tem um preço: menor crescimento econômico. Isso atinge a geração de empregos, mantendo muitos trabalhadores que estão à margem da sociedade, contudo, beneficia a camada mais pobres da população, que é aquela que mais sofre as consequências da carestia. São escolhas, e a meu juízo, correta neste momento. É preciso combater o mau maior, no caso, a inflação.

Fica evidenciado que a tentativa do Banco Central em mudar a política de juros no Brasil teve curta duração e de alguma maneira terá que oferecer daqui para frente a “ração” que o mercado deseja: mais juros na ponta.

Tudo dentro do previsto à medida que, em um País que possui a memória inflacionária, que sempre teve no mercado financeiro sua maior atratividade, em um País que apesar de praticar taxa básica de juros de 2% ao ano, permite, na ponta, juros de mais de 300% para algumas modalidades de empréstimos, não conseguiria impor um novo e desejável modelo de política monetária.

Mesmo acertando a decisão em elevar juros para conter a inflação, está demonstrado que no Brasil na prática a teoria é outra. O Banco Central se rende a esta realidade.

Juros e inflação Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

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