Mundo pós-pandemia: teremos mais perdedores do que vencedores

Mundo pós-pandemia: teremos mais perdedores do que vencedores

Os cientistas das mais diversas áreas tentam entender, explicar e projetar o que será o mundo pós-pandemia. Entre as várias análises vamos focar na questão econômica e financeira.

Na prática serão acentuadas as características dos perdedores e dos vencedores, sendo que, claramente, o maior contingente será de perdedores.

No contexto mundial, a China, epicentro da pandemia, já se recupera. Um cidadão pode tranquilamente frequentar uma casa noturna coisa impraticável, ao menos legalmente, em muitas partes do mundo.

O fato de ser um país industrializado, a China não sofre de maneira contundente os mesmos desafios de países, que, por exemplo, têm matriz econômica alicerçada no setor terciário da economia (comércio e serviços). Será um dos poucos países a operar no azul do ponto de vista do crescimento econômico: números mais recentes do Fundo Monetário Internacional apontam para alta de 1,9% sobre o ano passado. Sem dúvida são vencedores.

a Europa vive outra realidade. Na França, Paris por exemplo, fechou bares. Na Espanha, Madri, adotou quarentena parcial e o Reino Unido passa a impor novas restrições aos cidadãos. Perdem neste momento. Isso só para citar alguns exemplos.

E o Brasil? Aqui a pandemia encontrou um País reconstruindo sua matriz econômica. As premissas econômicas para sustentar o crescimento de longo prazo não foram levadas a efeito em sua plenitude. A reforma da previdência foi início, as demais reformas estruturais, com privatizações, enfim, o ajuste fiscal estava em curso e havia clara melhoria do ambiente de negócios, apesar dos descompassos políticos. Quanto mais frágil a economia de um País, mais a população perde.

No ambiente microeconômico as grandes corporações, as famílias mais ricas e boa parte do funcionalismo público, conseguiram contornar os efeitos da pandemia. As corporações por terem em seu quadro funcional profissionais capazes para estabelecer estratégias de gestão de crise, sem falar da boa estrutura de capital.

As famílias ricas, estas sempre se dão bem. E o funcionalismo público não teve achatamento de renda e com o distanciamento e isolamento social, reduziram seus gastos, gerando excedentes. São vencedores.

Na outra ponta perdem os empreendedores de pequenos e médios negócios, a classe média e a classe mais baixa. Esta última, se recebe o auxílio emergencial, contorna os efeitos da pandemia, mas a realidade que se avizinha é cruel: o auxílio tem prazo de validade, e o número de miseráveis crescerá.

Já as empresas pequenas e médias, sem capital de giro ou fecharam as portas ou se endividaram. Convivem com estrutura de capital precária. E a classe média brasileira, com a falta de educação financeira, adotando padrão de vida muitas vezes incompatíveis com sua renda, não tinham excedentes financeiros, também podem ser consideradas perdedoras.

Em resumo: como em outras crises sempre haverá perdedores e ganhadores, mas a pandemia potencializou o número de perdedores, indicando problemas sociais gravíssimos que exigirá, de todos, sem distinção, ações para mitigar tais efeitos. Fica a análise e o alerta.

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

🌐 www.reinaldocafeo.com.br

✔ Leia outros artigos como este no blog da ACIB, clicando aqui: https://acib.org.br/blog/

Crise hídrica em Bauru: esforço multidisciplinar

Crise hídrica em Bauru: esforço multidisciplinar

A população bauruense sofre com a crise hídrica, devido a estiagem prolongada, afetando diretamente o nível da água do Rio Batalha que fornece água para 38% da população, atingindo diretamente cerca de 140 mil bauruenses.

Do nível ideal de água, que seria de 3,20 metros, o Rio Batalha está com nível abaixo de 1,40 metro. Isso limita a captação de água, e evidentemente que fornecimento passa a ser precário.

Mesmo tendo em mãos o Plano Diretor de água, cuja elaboração custou aos cofres do DAE de Bauru R$ 1,3 milhão e foi realizado há 6 anos, em 2014, pouco avançamos. O Plano apontava investimentos na ordem de R$ 256 milhões para cumprir todo processo de captação, reserva e distribuição de água.

O que mais chamou a atenção quando o plano foi apresentado é que a cidade desperdiçava 48,7% da água que tratava. Evidentemente que o investimento estimado não seria realizado no curto prazo, mas, insisto, passados 6 anos não fizemos a lição de casa na magnitude necessária.

O desperdício continua e a reservação não avançou. Mais recentemente, o ano passado, o DAE conseguiu autorização da Câmara Municipal para destinar R$ 12 milhões do Fundo de Tratamento de Esgoto, visando realizar uma série de investimentos, e passado mais de um ano, a constatação é que pouco ou quase nada foi efetivamente entregue.

O DAE possui geração de caixa constante, algo muito desejado pelos investidores. também tem em suas mãos o poder de desligar o fornecimento de água quando há inadimplência. É certo que pratica tarifas sociais, mas pode ser considerado a bola de prata da gestão pública municipal. Em resumo: recursos financeiros não faltam, tampouco faltam recursos humanos, ao menos em termos de quantidade.

Esta autarquia sofreu sim com a decisões políticas com elevada rotatividade em seu comando. De 2017 para cá, portanto, em 3 anos, foram três Presidentes, mesmo um deles sendo interino. Também pode ser considerada um abrigo para servidores comissionados, os quais, nem sempre possuem experiência técnica suficiente para oferecer a Autarquia e por consequência à população uma prestação de serviços de qualidade.

O diagnóstico é este: o DAE precisaria ser reinventado e não foi, e vejam que ainda há uma série de dúvidas quanto a sua real capacidade em coordenar o término da Estação de Tratamento de Esgoto, e mais ainda, capacidade em gerenciar a mesma após seu término.

Por tudo isso, projetando o médio e longo prazo, com as discussões dos candidatos a Prefeito, possivelmente teremos um novo horizonte que aponte o melhor caminho, tanto na eventual reestruturação como até a discussão de um eventual modelo de privatização.

E no curto prazo? Não há como equacionar a falta d´água. Precisa sim remediar. Por isso, é imperativo a formação de um Grupo de Gerenciamento de Crise. De ser multidisciplinar, envolvendo técnicos do DAE, representantes do Legislativo Municipal, representantes da sociedade civil organizada ligadas ao setor e ainda convocar Secretarias Municipais que possam auxiliar na tarefa de encontrar meios atender a demanda por caminhões pipa, inclusive ampliando o atendimento emergencial do DAE, e conscientizar parte da população.

Neste prisma a SEBES tem papel importante, pois acessa a população mais carente e pode mapear as demandas. Outra secretaria que pode exercer papel importante é a da Educação, afinal, com o ensino remoto, há contatos diários com as famílias dos alunos e estimular o não desperdício e entender as demandas localizadas, permitirão ações certeiras. Isso sem contar a já anunciada iniciativa de utilizar os reservatórios das escolas para abastecer residências sem água.

A Secretaria de Desenvolvimento Econômico tem interface com empresários e entidades empresariais que podem canalizar esforços visando agilizar processos, evitar superfaturamento e desenhar a logística necessária para o enfretamento da crise.

A velha frase vale nesta hora: se não tem remédio, remediado está. Agora é hora de admitir a dimensão do problema e buscar soluções que reduzam o impacto da falta de água nos cidadãos bauruenses. É hora de verificar quem efetivamente tem capacidade para liderar este processo.

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

🌐 www.reinaldocafeo.com.br

✔ Leia outros artigos como este no blog da ACIB, clicando aqui: https://acib.org.br/blog/

Reforma tributária: focar no que é possível

Reforma tributária: focar no que é possível

Considerando os atores envolvidos, sem dúvida alguma levar em frente a reforma tributária esperando que haja consenso não é trabalho fácil.

Por mais que eventualmente, o desejo de todos seja não elevar a carga tributária brasileira, por sinal uma das mais altas entres Países emergentes, é certo que setorialmente e até mesmo dentro das classes sociais, alguém perderá para outro ganhar. Além deste fato, há dois ingredientes adicionais na discussão: os tributos estaduais e municipais.

Neste particular o que se vê uma verdadeira colcha de retalhos. Isso tudo tendo ainda uma pandemia a ser combatida que vem consumindo volumosos recursos públicos.

A conclusão é que entre a reforma ideal e a possível, o foco deve ser a reforma possível. Há muitos pontos em discussão tais como: desoneração da folha de salários, créditos e débitos tributários via imposto de valor agregado, substituição tributária, enfim, há uma infinidade de impostos, taxas e contribuições que devem ser analisados em toda sua dimensão.

Um ponto que pode ser atacado e resolver logo refere-se à simplificação tributária. Neste particular há um pequeno grupo de interessados em que a complexidade tributária atual seja mantida. Há muito dinheiro em jogo, contudo, os demais atores desejam e diria mais, esperam que declarar tributos no Brasil seja mais leve, e não precise de um verdadeiro arsenal de profissionais trabalhando o tempo todo só para atender a legislação vigente.

Há ainda elementos novos a serem considerados, como a ampliação dos programas de transferência de renda. Além das famílias já cadastradas no Bolsa Família, a pandemia atual fez o governo descobrir que mais de 20 milhões de brasileiros eram praticamente invisíveis. Não possuem quase nada formal e agora estão cadastrados e recebendo o auxílio emergencial.

Por sinal este fato passou a ser sensível ao governo Federal, pois está ligado diretamente ao crescimento da popularidade do presidente Jair Bolsonaro, forçando a equipe econômica a gastar energia na busca de uma solução.

De alguma rubrica do orçamento terá que sair os recursos, e a reforma tributária é colocada como moeda de troca. Perda total de foco, inclusive, com sinalização de criação do tributo sobre transações digitais.

Observaram que neste particular a discussão da reforma saiu da esfera técnica e foi totalmente politizada. Não que as reformas necessárias ao País não sejam levadas a efeito nas discussões políticas, mas fica desfocada quando envolve interesses eleitorais.

Insisto: focar no que é possível é melhor do que focar na reforma ideal. O pior que pode acontecer, e tudo indica que será este caminho, é adiar a discussão da reforma. Aí perdem todos, infelizmente.

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

🌐 www.reinaldocafeo.com.br

✔ Leia outros artigos como este no blog da ACIB, clicando aqui: https://acib.org.br/blog/

Recuperação econômica: na sopa de letras surgiu o “K”

Recuperação econômica: na sopa de letras surgiu o “K”

Muitas teses de como se dará a recuperação econômica mundial, e em especial a brasileira, têm sido defendidas. Eu mesmo, aqui neste espaço, já tratei do tema.

Além de muitas análises e projeções, temos o que podemos denominar de verdadeira sopa de letras. Não bastassem o “V”, “W”, “U”, agora temos o “K”.

Vamos rememorar alguns conceitos até chegarmos ao “K”. Uma tese é que devido a pandemia a recuperação econômica em muitos Países, se dará em “V”. Houve queda acentuada da atividade econômica, mas a geração de riquezas voltaria com vigor muito rapidamente.

O “W” indica que o desempenho econômico caiu, isso é verdadeiro, bateu no fundo, voltaria a crescer, mas uma segunda onda, derrubaria novamente os indicadores de atividade econômica, voltando a crescer em seguida. Neste cenário quem sobreviveu a primeira onda, sofreria muito na segunda onda, podendo não suportar as consequências da crise.

O “U”, para mim o cenário até agora mais provável, indicaria queda na atividade econômica e recuperação muito lenta da economia.

Com o surgimento da leitura de que o “K” representaria melhor este momento da economia mundial, nos fez refletir sobre a não uniformidade no comportamento dos setores da economia e dos agentes econômicos como um todo. Nesta tese a economia despencou, e a recuperação se dará em duas dimensões: os vencedores, representados pela perna ascendente da letra, e os perdedores, no caso representados pela perna descendente do “K”.

De fato, a pandemia pegou cada País um determinado momento econômico. Alguns Países estavam com a economia consolidada, sustentada, e podem ter recuperação mais rápida e diria, uniforme, com a letra V. Outras economias mais debilitadas, poderiam operar em “W”. Alguns Países, como o Brasil, com dimensão continental e matriz econômica diferente nas várias regiões, podem se recuperar em “U” ou “K”.

Independentemente da leitura sobre o comportamento da economia uma coisa é certa: se não ocorrer uma segunda onda da Covid19, como cogitada, por exemplo, no Reino Unido, podemos afirmar que o pior ficou para trás, no primeiro semestre. Isso posto, teremos sim no pós-pandemia vencedores e perdedores, e as perspectivas positivas de longo virá da capacidade de cada País, em especial o Brasil, de focar no ajuste fiscal, demonstrar que é possível fazer com que a economia opere no equilíbrio e acima de tudo, que há estratégia para que, mesmo no longo do tempo, as coisas voltem ao “normal”.

Na verdadeira sopa de letras, mais uma para nossa reflexão.

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

🌐 www.reinaldocafeo.com.br

✔ Leia outros artigos como este no blog da ACIB, clicando aqui: https://acib.org.br/blog/

Retomada da economia: foco na política fiscal

Retomada da economia: foco na política fiscal

Pelos recentes números do desempenho econômico brasileiro é possível concluir que o efeito mais agudo da pandemia na atividade econômica brasileira ficou para trás.

O tombo de 5,9% no Produto Interno Bruto brasileiro na comparação entre o primeiro semestre deste ano com idêntico período do ano passado, puxado principalmente pela queda de 9,7% no PIB do segundo trimestre, não se repetirá no segundo semestre.

Mesmo com esta constatação, o ano do ponto de vista econômico está perdido. Fecharemos 2020 com queda expressiva na geração de riqueza, retrocedendo cerca de 10 anos. Como a população continuou crescendo neste período, infelizmente, na média, estamos mais pobres.

Voltemos ao bom desempenho recente da economia. O que explica a retomada das atividades econômicas? Parte da melhoria das vendas tem explicação na ampliação do consumo das famílias.

Mesmo com a queda no nível de emprego e achatamento de renda do trabalhador, o auxílio emergencial de R$ 600,00 por pessoa e para algumas famílias, dependendo do arranjo, este valor foi concedido a dois e até membros do núcleo familiar, fez como que o consumo dos produtos básicos alimentícios, passando por material de construção e até mesmo eletroeletrônicos, crescessem.

Outra justificativa vem dos baixos preços de produtos supérfluos, atendendo a demanda reprimida no período.

Sendo verdadeira esta leitura, é fato que este movimento dos consumidores tem prazo de validade. Tanto a demanda reprimida como o auxílio emergencial perderão força daqui para frente. A primeira porque não é renovada, a segundo porque o valor caiu pela metade e não será permanente.

Assim podemos concluir que há um certo “artificialismo” na geração de riqueza. Quando avaliamos a sustentação do crescimento no longo prazo, fica mais que comprovado que a questão está ligada a confiança dos agentes econômicos. A economia gera riqueza com a volta dos investimentos produtivos. Estes investimentos serão aportados quando o risco for baixo.

Para isso é preciso um ambiente econômico favorável. Os investimentos geram emprego, que movimentam o consumo das famílias via produção e não simplesmente pela transferência de renda promovida pelo setor público.

Os efeitos da política monetária já se esgotaram e juros baixos atingirão mais fortemente setores de bens duráveis e imobiliário. Resta somente focar na política fiscal. É a austeridade fiscal que garantirá a retomada da confiança na economia brasileira.

Por este motivo é imprescindível que os gastos públicos sejam controlados com mão firme reduzindo o déficit público, estabilizando a relação Dívida Pública e Produto Interno Bruto.

Já seria um bom início se o governo Federal tivesse prática uniforme: o desgaste diário do Presidente Bolsonaro com a equipe econômica de Paulo Guedes tira o foco, não nos remete a um caminho seguro.

Ainda há esperança no ar, afinal, mesmo com artificialismo econômico, está mais que comprovado que potencial econômico brasileiro é enorme, e se o governo focar no que é necessário, poderemos não somente driblar a crise como alicerçar o modelo econômico que nos leve a um porto seguro.

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

🌐 www.reinaldocafeo.com.br

✔ Leia outros artigos como este no blog da ACIB, clicando aqui: https://acib.org.br/blog/

Cada um de nós tem uma inflação para chamar de sua

Cada um de nós tem uma inflação para chamar de sua

As famílias brasileiras observam elevação de preços nos itens da cesta básica. Arroz, óleo de cozinha, soja e feijão são alguns itens que sofreram expressiva majoração.

Por outro lado, o IBGE divulgou o índice oficial de inflação no mês de agosto: 0,24%, acumulando no ano 0,70% e em 12 meses 2,44%. O mercado projeta inflação abaixo de 1,8% para este ano.

É inevitável a discussão sobre o comportamento dos preços na economia. A tentação inicial é não acreditar que a inflação oficial está correta. Muita calma nesta hora.

Na prática cada um de nós tem uma inflação para chamar de sua, à medida que cada família sentirá mais no bolso as eventuais altas de preços, dependendo do perfil de consumo.

Aqueles que possuem menor renda e canalizam a maior parte deste valor para o consumo de alimentos sente muito mais o impacto da alta dos preços dos alimentos, do que aqueles que possuem renda mais elevada. Já aqueles que possuem filhos em escola particular, por exemplo, e este valor mensal pesa no orçamento doméstico, já sentem de maneira diferente o comportamento dos preços, posto que este item teve queda de preços médio no último mês.

Mesmo com esta constatação é verdadeira a alta nos preços dos alimentos e bebidas. No caso específico do arroz houve queda da safra deste ano e com dólar mais elevado (referencial dos preços internacionais) o preço final está salgado, chegando a 30% de alta para os distribuidores e foram verificados até 100% de aumento para o consumidor final.

O impacto do dólar é observado nos principais produtos que são considerados commodities. É o tipo de produto em uma estrutura de mercado que se aproxima da concorrência perfeita em que o produtor é tomador de preços no mercado, ou seja, o preço é definido em muitos casos internacionalmente, pelo próprio mercado.

É importante colocar na conta que o dólar também impacta o custo dos insumos utilizados na agricultura, à medida que a indústria deste setor é concentrada. Também as empresas brasileiras estão priorizando as vendas para o exterior, sobrando menos produtos para o mercado interno.

Outra questão a ser considerada é metodologia de cálculo da inflação. O IPCA – Índice de Preços ao Consumidor Amplo, índice oficial do governo, coleta preços em todas as capitais brasileiras e abrange nove grupos. Neste particular é importante destacar: são produtos consumidos pelas famílias brasileiras (alguns itens regionalizados) que ganham de 1 a 40 salários mínimos mensais.

E não menos importante: cada produto e grupo têm um peso diferente no índice final. Puxam a inflação para baixo ou para cima o grupo transporte e o grupo alimentação e bebidas. Ambos respondem por 40% do total do IPCA.

Em resumo: a inflação oficial é verdadeira, e no mês de agosto dos 9 grupos pesquisados, 6 deles apontaram alta e 3 quedas. Na média, ponderada, entre alta de quase 12,98% no preço do tomate, queda de 3,47% na educação, alta de 0,67% em comunicação, queda de 0,78% nos vestuários, entre outros, tivemos o resultado de 0,24%.

Quanto a carestia constatada no dia a dia, em economia de mercado, o Estado deve intervir somente quando ficar caracterizado abuso do poder econômico e o consumidor deve ser soberano: sempre que possível substituir produtos ou reduzir quantidade. Com menos vendas, as margens de lucro serão reduzidas, os preços cairão.

Espero que a inflação que você chama de sua, esteja baixa.

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

🌐 www.reinaldocafeo.com.br

✔ Leia outros artigos como este no blog da ACIB, clicando aqui: https://acib.org.br/blog/

Brasil em recessão técnica

Brasil em recessão técnica.

Com a queda de 9,7% do Produto Interno Bruto brasileiro (PIB) no segundo trimestre deste ano no comparativo com o primeiro trimestre também deste ano, o Brasil está em recessão técnica. Isso ocorre quando em dois trimestres ou mais o PIB apresenta recuo. No primeiro trimestre a queda foi de 2,5%. 

O Brasil acumula no primeiro semestre deste ano, comparado com idêntico período do ano passado, queda de 5,9%, patamar alinhado com as expectativas do mercado para o ano fechado.

A pandemia do novo coronavírus, a Covid19, colocou por terra qualquer perspectiva de crescimento econômico para o Brasil, realidade também enfrentada em outros Países. 

Os dados do segundo trimestre, quando analisados pelo lado da oferta, apontam que somente o setor primário da economia teve resultado positivo: +0,4%. Como este setor representa somente 5,5% do total do PIB, seu efeito no resultado não é significativo. As regiões com matriz econômica alicerçada na agropecuária sentiram menos os efeitos da crise atual.

A indústria observou tombo de 12,3% no trimestre, sendo que a indústria de transformação foi a mais afetada: queda de 17,5% no período. A construção civil recuou 5,7%.

Representando 75% do PIB o setor terciário da economia amargou queda de 9,7%. O comércio, que faz parte deste setor, recuou 13%.

Pelo lado da demanda, o consumo das famílias apresentou recuo de 12,5%. Vale lembra que esse item representa 70% do PIB, portanto, este recuo impactou decisivamente na queda total do PIB. Os investimentos recuaram 15,4%, o consumo do governo recuou 8,8%, tendo o setor externo apresentado alta de 1,8% nas exportações e queda de 13,2% nas importações.

Por tudo isso, mesmo com bons indicadores de desempenho nos meses de julho e agosto deste ano, é difícil apostar que a recuperação da economia seja rápida, no chamado V. Tudo aponta que será em U, deixando o W de lado. Recuperação lenta, mas virá.

O ambiente é de incertezas. Consumidores, setor público e empresários estão “feridos” financeiramente. O recuo no consumo das famílias não foi pior devido ao auxílio emergencial, gerando um “artificialismo”, o qual tem prazo de validade para acabar. 

Evidentemente que a queda do PIB não quer dizer PIB zerado. Há menos riqueza gerada e a disputa no mercado será intensificada, afinal, recuamos cerca de 10 anos: produziremos este ano o mesmo que produzimos em 2009. 

Quem estabelecer estratégias adequadas, somadas a incentivos governamentais, que certamente virão, notadamente na área de construção civil, setor gerador de empregos, poderá abocanhar parte deste fraco PIB. 

Desafios não faltam, principalmente no controle fiscal do setor público. O momento é para a equipe econômica dizer a que veio: pauta positiva daqui para frente para reduzir os impactos sociais deste momento de recessão. 

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

🌐 www.reinaldocafeo.com.br

✔ Leia outros artigos como este no blog da ACIB, clicando aqui: https://acib.org.br/blog/

Novo normal ou normal de novo?

Novo normal ou normal de novo?

Sem dúvida alguma a pandemia do novo coronavírus, a Covid19, impactou e vem impactando a vida das pessoas, tanto no âmbito pessoal, como profissional.

O isolamento e distanciamento social, os trabalhos remotos e proibição em atender ao público para alguns setores da economia e os protocolos de convivência, mexeram e mexem com o cotidiano de todos.

Neste contexto a expressão “novo normal” tem sido muito utilizada. Muitos entendem que as coisas daqui para frente não serão mais como eram antes da pandemia. A reflexão é: será mesmo que teremos um novo normal ou será o normal de novo? A meu ver a resposta é: teremos um pouco de cada coisa.

Este novo normal se justifica em função do uso da tecnologia. Até mesmo as camadas mais humildes da população de alguma maneira estão experimentando a interação a distância. Escolas, empresas, setor público, religiões, enfim, quase todos os segmentos da sociedade se deram conta que é possível sim produzir sem necessariamente ter o presencial.

Muita gente pretende continuar operando a distância, evidentemente quando a atividade permite, e até mesmo núcleos familiares observaram que estas novas tecnologias aproximam os distantes (apesar de as vezes distanciar os próximos).

Redução de custos de deslocamento, reuniões mais objetivas, conforto nas residências, enfim, uma série de mudanças comportamentais vieram para ficar, representando este novo normal.

Apesar desta constatação a história indica que, quando as crises passam há uma tendência de as pessoas voltarem ao estado anterior a crise. Tomemos como exemplo o mundo das finanças.

Ocorreram bolhas de ganhos em determinados ativos financeiros, em seguida as bolhas passam, muita gente perdeu dinheiro, mas algum tempo depois, outras bolhas nascem, e muita gente volta a apostar nas mesmas, e novamente perdem dinheiro. Voltaram a praticar o normal de novo.

Muitos empreendedores entraram por necessidade no mundo virtual, mas ali na frente, quando tudo isso passar, boa parte tenderá a voltar a focar nas vendas presenciais. Muitos que experimentaram, por exemplo, o ensino a distância, também quando as coisas voltarem ao normal, tendem a questionar a efetividade desta forma de ensino.

Independentemente de termos o novo normal ou o normal de novo, é certo que a dimensão desta pandemia nos tocará na alma, e a tendência, reforço, tendência, é que ocorram importantes mudanças do seio da sociedade e especial nos agentes econômicos.

O que não podemos deixar de considerar é: a única certeza é que as coisas mudarão, se isso já era verdadeiro antes da pandemia, agora é mais ainda. Estar aberto as mudanças é ser sábio.

Que venham tanto o novo normal como o normal de novo, pois muitos estarão muito mais bem preparados para enfrentar tudo e todos.

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

🌐 www.reinaldocafeo.com.br

✔ Leia outros artigos como este no blog da ACIB, clicando aqui: https://acib.org.br/blog/

Popularidade: precisamos aprender com a história

Popularidade: precisamos aprender com a história

“O bem que o Estado pode fazer é limitado; o mal, infinito. O que ele pode nos dar é sempre menos do que nos pode tirar.” esta frase do saudoso Economista Roberto Campos retrata bem as discussões presentes na condução do País diante da pandemia do novo coronavírus e mais especificamente no tocante a política fiscal atual.

Não obstante o Presidente da República, Jair Bolsonaro, afirmar que está “fechado” com o teto de gastos, portanto, com o rigor fiscal, é certo que o aumento de sua popularidade recentemente detectado pelos institutos de pesquisas, notadamente junto à população de menor renda, tem despertado em parte de seu Ministério e assessores diretos, aquela tentação de usar os recursos públicos para fins eleitorais, principalmente estendendo para o ano que vem o auxílio emergencial.

Precisamos aprender com a história.

Quem presenciou ou leu como foi o desenrolar do Plano Cruzado em 1986 (plano econômico do Presidente José Sarney, que para combater a inflação, congelou preços e salários) sabe do que estou falando, afinal, este plano deveria ter congelado preços e salários por pequeno período, em seguida revistos, mantendo inflação baixa de forma duradoura, mas a elevada popularidade de Sarney em ano de eleições, o fez arrastar o congelamento por um período elevado, culminando com ganhos eleitorais, a medida que seu partido à época, o PMDB, elegeu 22 dos 23 governadores e uma numerosa bancada no Congresso Nacional (Assembleia Constituinte), mas o preço pago foi elevado.

Os princípios do plano se deterioram, e mesmo editando novos planos econômicos, como o Plano Cruzado 2, Plano Bresser e Plano Verão, o ex-presidente Sarney entregou o País ao seu sucessor, Fernando Collor, com inflação acima de 80% ao mês, ou seja, de inflação de um dígito no início do Cruzado a mais de 80% ao mês depois de 4 anos.

Tivemos assim a chamada “década perdida”.

Evidentemente que não quero dizer que a inflação voltará e que teremos o mesmo ambiente econômico daquele período de Sarney, mas o alerta é: não se governa baseado em pesquisas de popularidade.

É importante considerar que a renda da população mais pobre do País foi afetada. Também é preciso considerar que o auxílio emergencial, é importante até mesmo para sobrevivência de parte da população, mas isso não pode ser por prazo duradouro. É preciso que sejam criadas condições para que o País volte a gerar riqueza (cresça economicamente) retomando os empregos e renda, aí sim, oferecendo vida digna aos trabalhadores brasileiros.

Aqui está o ponto chave: para voltar a crescer economicamente, portanto, como colocado, voltar a gerar emprego e renda não será com aventura fiscal. Gastar mais do que arrecada, gerando déficits, gera desconfiança dos investidores e mais que isso, tem prazo de validade, o desequilíbrio econômico é certo.

Vale lembrar que o presidente Bolsonaro após afirmar durante a disputa eleitoral que não pensava em reeleição e depois disse que poderia até considerar isso, mas que não vivia em função disso, agora passa a impressão que foi “picado” pela mosca do poder e que tudo pode para atingir este objetivo.

Independentemente de quem seja o Ministro da Economia, não haverá matriz econômica consistente, sustentando o crescimento no longo prazo, se não houver compromisso na condução rigorosa das contas públicas.

Nosso passado nos condena e devemos ser sábios para aprender com ele. Como disse Roberto Campos “o bem que o Estado pode fazer é limitado; o mal; infinito”.

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

🌐 www.reinaldocafeo.com.br

✔ Leia outros artigos como este no blog da ACIB, clicando aqui: https://acib.org.br/blog/

13 de agosto, Dia do Economista: muito a comemorar

13 de agosto, Dia do Economista: muito a comemorar

A profissão de economista foi sancionada em 13 de agosto de 1951 por Getúlio Vargas. Desta maneira todos os anos, no dia 13 de agosto, comemora-se o dia do economista. É uma profissão desafiadora. De um lado exige do profissional desta área a racionalidade, afinal, os modelos econômicos se valem da matemática e estatística.

De outro lado exige capacidade de abstração, principalmente quando se refere a leitura do ambiente econômico. Não obstante estas exigências o que mais emblemático há no exercício desta profissional é busca incansável da justiça social.

Isso é demonstrado quando os economistas contribuem na elaboração das políticas macroeconômicas. Qual o resultado prático em elaborar políticas públicas que garantam o crescimento econômico sustentável ao longo dos anos? Quais os impactos na população quando há efetivo controle da inflação? O que dizer da promoção social quando são criadas condições econômicas para geração de emprego?

Levar o País ao crescimento econômico, com baixa inflação e gerando emprego garante vida digna as pessoas. Há um outro fator mais importante: o quanto faz a diferença aos cidadãos quando modelos econômicos, elaborados ou tendo a contribuição do economista, atingem em cheio a distribuição equitativa da renda!

Mesmo no contexto microeconômico o economista contribui para melhorar as condições de vida das pessoas. Auxiliar os empreendedores na elaboração e prática de Planos de Negócios. Garantir a estrutura de capital necessária para sustentar os negócios. Planejar carreiras profissionais sólidas e ainda indicar caminhos para que as famílias possam gerenciar adequadamente o orçamento familiar. Desenvolver modelos financeiros para que as decisões presentes sejam ótimas ao ponto de garantirem uma velhice com qualidade de vida, vai ao encontro destas premissas.

Enganam-se aqueles que atribuem aos economistas os momentos de retrocesso econômico do País, afinal, por vezes a vontade política dos governantes, modificam os caminhos tecnicamente traçados por estes profissionais, e o resultado nem sempre são aqueles projetados.

Mas insisto: há muito a comemorar e não dúvidas que, dada a dimensão dos desafios que a pandemia no novo coronavírus nos trouxe, será imprescindível utilizar na plenitude o conhecimento dos economistas para reduzir os efeitos sociais e ao mesmo tempo abreviar a retomada da economia.

Economista, comemore, hoje e sempre!

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

🌐 www.reinaldocafeo.com.br

✔ Leia outros artigos como este no blog da ACIB, clicando aqui: https://acib.org.br/blog/