A pobreza no Brasil

A pobreza no Brasil

Os dados mais recentes da pobreza e concentração de renda do Brasil são de 2019. O IBGE apurou que 6,5% da população brasileira vive na extrema pobreza, isto é, sobrevivem com menos de 1,9 dólar (aproximadamente R$ 10,00) por dia. Em números absolutos eram 13,6 milhões de brasileiros nesta condição.

O número melhorou em 2019 diante de 2018, não obstante esta melhora, sem dúvida ainda é muito elevado. A melhora dos números em 2019 foi fruto de um mercado de trabalho mais ativo tanto na geração de empregos formais, como nos informais e no trabalho formal por conta própria.

Isso refletiu também na queda do índice de Gini (alusão ao matemático italiano Conrado Gini, que criou a metodologia), que mede concentração e desconcentração de renda. O índice vai de zero a 1. Quanto mais perto de 1, mais concentrada a renda. Quanto mais próximo de zero, menos concentrada a renda. Em 2019 o índice de Gini foi de 0,543 e no anterior 0,545. O menor nível da série histórica foi verificado em 2015 quando atingiu 0,524.

Apesar desta pequena melhora é fato que a pandemia bagunçou tudo. Um País que focaria na questão fiscal, que faria reformas estruturais além da exitosa reforma previdenciária, incluindo melhoria no ambiente de negócios, teria tudo para continuar crescendo, o que é melhor, crescendo sustentadamente. Este ano voltamos à estaca zero, ou melhor, menos que zero.

Sem dúvida a ajuda emergencial para cerca de 66,9 milhões de brasileiros durante a pandemia atenuou os impactos provocados pelo isolamento e distanciamento social, ou seja, a quarentena forçada.

Muitos que lutavam diariamente para conseguir um mínimo para sua sobrevivência e de sua família, passaram a contar com o recurso adicional. Pelo modelo em curso até mesmo quem recebia o auxílio via Bolsa Família observou a renda crescer. Mas para parte da população o auxílio emergencial tem vida útil.

Do ponto de vista fiscal não há fontes de recursos para continuar financiamento este volume de pessoas, mesmo eventualmente sendo necessário. Pode ser Bolsa Família ou Renda Brasil ou Renda Cidadã, seja lá qual o for o nome escolhido, o País e em especial o setor público, terá que apontar como atender as demandas sociais e ao mesmo tempo gerar confiança no tocante ao endividamento público. Não é tarefa fácil.

Sem dúvida alguma o melhor remédio para equacionar tudo isso é o País voltar a crescer e de maneira sustentada. Fora isso serão sempre paliativos que somente adiarão o enfrentamento dos problemas sociais do Brasil.

Neste contexto há um conflito: os sinais da economia têm que ser no caminho da austeridade fiscal e com ela virão os investimentos produtivos que permitirão o crescimento econômico e geração de emprego e renda, e na outra ponta, até que isso ocorra, será preciso ampliar o volume de recursos para atender, via transferência de renda, os mais pobres.

Passou da hora de tornar público e com a maior clareza possível quais as estratégias que o governo Federal apresentará para o encaminhamento destas questões.

Se 2019 tivemos melhora nos indicadores sociais, se 2020 o auxílio emergencial evitou a deterioração destes indicadores, agora é hora de indicar caminhos para que 2021 não seja o ano do aumento dos miseráveis no Brasil.

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

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Sonho de um eleitor bauruense

Sonho de um eleitor

Eu sonhei com as eleições municipais. Sonhei que os eleitos para governar a cidade nos próximos quatro anos se debruçariam para estabelecer um planejamento estratégico de curto, médio e longo prazos. Neste sonho seria traçado o mapa estratégico, a análise do ambiente interno e externo, e teríamos um mapa de indicadores de desempenho. Meu sonho viu as propostas do CODESE norteando o planejamento de longo prazo da cidade. Neste particular sonhei com o Instituto de Planejamento.

Também sonhei que os novos administradores da cidade estabeleceriam juntamente com sua equipe, planos de ação, nos quais seria dada publicidade do que pretendiam realizar, por quê iriam fazer, quem iria realizar, em qual prazo e quanto seria o custo/benefício daquela ação. No sonho minha imaginação foi tão fértil que vislumbrei tudo isso sendo controlado em tempo real, com a acesso irrestrito aos cidadãos.

Sonhei que os novos dirigentes da nossa cidade tinham finalmente traçado um plano consistente para equacionar o problema da COHAB. Neste sonho vislumbrei um trabalho que apontasse legalmente qual é o melhor formato para liquidar a Companhia e qual a estrutura mínima, menos onerosa, para que isso fosse cumprido. Meu sonho foi além, imaginou um profissional liquidante, apolítico, apartidário e focado nos resultados que mais favorecessem a cidade.

Foi um sonho longo, confesso, nele eu via um DAE administrado por um técnico que inicialmente reestruturasse a gestão da autarquia, também com indicadores. No sonho veio até o plano de águas, inclusive com os passos a serem seguidos para reduzir a perda de água no sistema e ainda o DAE dando publicidade de qual cronograma irá cumprir durante os quatro anos e qual legado deixará para o próximo gestor da cidade. Vi o DAE com um plano para a estação de tratamento de esgoto.

Nele estabelecia um grupo gestor da atual obra, com profissionais multidisciplinares, com acompanhamento diário do cronograma e a população podendo acompanhar o andamento do mesmo em tempo real. Tinha até a data de inauguração – dezembro de 2021, e mais importante o DAE: já tinha enviado projeto para gestão futura da estação. 

O sonho foi além: reinventou a Emdurb. Ela passou a ser enxuta, produtiva, e pasmem, prestando serviços a terceiros. Sonhei que a tecnologia da informação seria prioridade da gestão pública. Todos os sistemas de informática interligados, com BI (Business  Intelligence) fazendo o cruzamento das informações.

Sonhei com a criação do fundo para abrigar as contrapartidas dos empreendimentos e um comitê que traçasse as prioridades para uso desse dinheiro. Sonhei que a área central teria foco em assentamento humano e que finalmente teríamos um centro da cidade a altura da representatividade da cidade na região.

Falando em região me lembrei que sonhei com a usina regional de tratamento de lixo. Sonhei que a SEBES teria não somente o cadastro detalhado dos vulneráveis, como também trabalharia com indicadores que permitissem a mobilidade social. Sonhei que nossas escolas estavam equipadas com o que é de mais moderno para o ensino/aprendizagem. Sonhei com o uma Secretaria de Desenvolvimento Econômico focada em ciência, tecnologia e inovação. Sonhei com os convênios com as universidades locais.

Sonhei que o atendimento de saúde a população estava impecável. Que foram firmados convênios com a iniciativa privada e tudo que o setor público não fosse capaz de atender, este convênio atenderia.

Sonhei que os cidadãos teriam em suas mãos um aplicativo que seria o canal direto com a prefeitura, gerando suas demandas, com controle em um grande painel. Sonhei que todas as secretarias estariam integradas e houve aumento na arrecadação porque finalmente fomos eficientes na arrecadação tributária. Sonhei que as pessoas estariam abertas a discutir custo/benefício das Parcerias Público Privadas, sonhei ainda que o legislativo municipal seria independente, fiscalizador e que nosso conjunto de leis fosse atualizada.

Sonhei com tanta coisa, que faltou espaço para escrever, mas me lembro que antes de acordar o sonho indicou que meu desejo é que o novo comandante da cidade fosse uma pessoa proba, aberta ao diálogo, sem vaidades, e com perfil gestor, que governasse para todos, e tivesse a sensibilidade para atender os mais necessitados e se possível sem pensar em reeleição.

Agora rezo para que meu sonho se torne realidade. Quem sonhou ao menos parte do que eu sonhei?

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

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Desemprego: analisar o “filme” e não o “retrato”

Desemprego

Os dados mais recentes no tocante ao emprego e desemprego no Brasil trazem em uma primeira análise resultados conflitantes.

Dados do CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), divulgados pelo Ministério da Economia, apontam para o melhor setembro em criação de emprego com carteira assinada em 29 anos. O saldo entre admissões e demissões foi positivo em 313.564 vagas. São três meses de resultados positivos.

Por outro lado, a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), cuja divulgação é do IBGE, trouxe o maior nível de desempregados em sua série histórica iniciada em 2012: taxa de 14,4% da população economicamente ativa no trimestre fechado em agosto deste ano. São 13,8 milhões de brasileiros em busca de um emprego, representando alta de 8,5% sobre o trimestre anterior.

Aqui que entra a análise do “filme” e não do “retrato”. O primeiro ponto a ser considerado é que as pesquisas estão em tempos diferentes. Enquanto a Pnad Contínua carrega números de junho, julho e agosto, portanto, refletem ainda parte da quarentena imposta pelos agentes políticos, o CAGED traz números mais recentes, de setembro, momento de recuperação da economia nacional, principalmente devido a retomada das atividades produtivas.

Não obstante esta leitura, é fundamental entender o que cada pesquisa reflete. O CAGED tem foco na formalidade. Por este prisma, após a pandemia forçar o fechamento de inúmeras empresas, àquelas que “sobreviveram” precisam repor sua força de trabalho à medida que tanto o mercado interno como externo ampliaram a demanda.

Uma empresa que operou no pior momento no nível mínimo de funcionários, acaba sendo forçada a repor esta mão de obra, que por sinal, é qualificada e abundante. De um lado não demitem e de outro lado contratam, o resultado não poderia ser outro, saldo positivo para contratações.

Já a Pnad Contínua captura a movimentação do mercado de trabalho. As pessoas até então desalentadas (as que não realizaram até então nenhum esforço em buscar um emprego, quer porque têm receio em contrair o vírus da Covid19, quer porque cansaram de procurar emprego sem sucesso e até mesmo por falta de recursos para se deslocar em busca de uma colocação) agora se lançam no mercado de trabalho. Estão aptas e dispostas a trabalhar, portanto, são considerados economicamente ativos, mas não encontram vagas no mercado de trabalho.

O universo do mercado de trabalho é amplo e não restrito àqueles que conseguem registro em carteira, foco do CAGED. Há os ocupados via informalidade. Há os que abriram suas MEIs. Há os subempregados (que querem trabalhar mais horas). Há ainda, como colocado, os desalentados.

O “filme” da redução do desemprego está distante de ser alcançado. A forte geração de riqueza vem do setor privado através dos investimentos produtivos, e em tempos de incertezas, o apetite em canalizar recursos nesta direção é menor e ainda seletivo.

Assim que o Brasil se concentrar novamente nos grandes temas que sustentarão o crescimento econômico de longo prazo, principalmente no tocante ao rigor fiscal via reformas estruturais, o emprego voltará. Até que isso efetivamente ocorra, conviveremos com sinais que aparentam ser invertidos, mas que na prática retratam uma única realidade: milhões de brasileiros terão que esperar uma longa fila para sua recolocação no mercado de trabalho.

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A dívida pública brasileira

A dívida pública brasileira

A dívida pública federal brasileira atingiu R$ 4,5 trilhões no mês de setembro: alta de 2,59% se comparada a agosto deste ano. Os dados são do Tesouro Nacional. Vale destacar que devido ao aumento dos gastos para o enfrentamento da pandemia do novo coronavírus as emissões de títulos públicos continuam elevadas, com colocação acima da média histórica.

Em 2019 o total emitido foi de R$ 759,3 bilhões e em nove meses deste ano este valor já foi ultrapassado, atingindo R$ 798,3 bilhões. A dívida externa subiu 3,21%, atingindo US$ 245,8 bilhões. Neste caso há o efeito da desvalorização do Real frente ao Dólar.

Em ano atípico se o País efetivamente pretende resgatar a confiança dos agentes econômicos, terá que ser firme no tocante a austeridade fiscal.

O déficit primário, ou seja, receita menos despesas sem computar os juros da dívida pública, deve atingir R$ 850 bilhões este ano, praticamente toda a economia prevista em 10 anos com a reforma da previdência.

O governo federal e a equipe econômica em particular não podem permitir a explosão da relação dívida pública bruta com o Produto Interno Bruto, que pode atingir os 100% este ano, diante de uma previsão inicial, sem pandemia, abaixo dos 80%. Em uma linguagem mais simples é como se uma família ficasse cada vez mais endividada no comparativo a sua renda anual.

Em determinado momento o crédito desta família será suspenso devido à incerteza de que ela terá capacidade financeira para honrar a dívida assumida. É isso que está em jogo: confiar que o governo será capaz de honrar a dívida contraída. Para tanto é fundamental manter e cumprir o teto de gastos e ainda reduzir de maneira expressiva os déficits fiscais para os próximos anos.

Com ações na direção da austeridade fiscal o governo gerará confiança dos agentes econômicos. Confiança na gestão pública é o um dos principais fatores para que o setor privado invista em novas plantas, ampliando a oferta de bens e serviços, gerando emprego e renda. Em resumo: um Estado rigoroso com as contas públicas estimula o crescimento econômico, e mais que isso, ele se sustentará ao longo do tempo.

Somente governos fracos e populistas é que desconsideram os fundamentos econômicos e não controlam seus gastos. Não há mais espaço para este tipo de aventura.

Os números do endividamento público estão aí não como somente estatísticas, mas como alertas de que será preciso muito foco para não jogarmos o País no descrédito total.

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Desoneração da folha de salários reduz o custo Brasil

Desoneração da folha de salários reduz o custo Brasil

O denominado “custo Brasil”, que nada mais é o elevado preço que a sociedade brasileira paga pela alta carga tributária, malha viária defasada, baixa produtividade da mão de obra, setor público inchado e inoperante, entre outras, torna os produtos brasileiros menos competitivos em nível internacional e a próprio cidadão acabado desperdiçando seus escassos recursos financeiros.

Quando o Ministro da Economia, Paulo Guedes, insiste em desonerar a folha de salários vai na linha de reduzir ao menos um item do custo Brasil: o elevado custo da mão da obra brasileira.

Dependendo do setor de atuação da empresa, para cada R$ 1.000,00 de salário contrato, sãos gastos mais de 100% em encargos sociais. Décimo terceiro salário, um terço de acréscimo sobre os salários quando o empregado sai em férias, FGTS, INSS, contribuições ao sistema S, entre outros encargos, tornam o custo da mão de obra brasileira, comparativamente a outras Países emergentes, um dos mais elevados.

O modelo do Simples Nacional demonstrou que em parte este problema é equacionado. Ao retirar encargos sobre a folha de salários e compensar com um percentual sobre o faturamento, o custo adicional da mão de obra cai para algo próximo a 40%.

O grande problema é que o País criou uma armadilha para si mesmo. De um lado o Estado, em todas as esferas, é muito gastador, sendo assim, o nível de arrecadação não pode cair, de outro lado, os benefícios trabalhistas foram ampliados, e toda vez que o assunto entra em pauta, argumenta-se a questão dos direitos adquiridos, que o empresário explora os trabalhadores, enfim, entra no campo da discussão ideológica e o problema não é atacado.

Na prática é preciso ir além da simples discussão sobre o custo da mão de obra, ir sim na direção de como reduzir o custo Brasil como um todo. Para isso é preciso traçar estratégias de longo prazo.

Um primeiro e importante passo é focar na reforma administrativa do Estado, mas que não seja uma reforma somente para controlar o número e benefícios de servidores públicos, mas que efetivamente introduza uma nova forma de gestão e governança, inclusive com uso mais intensivo da tecnologia. O setor público brasileiro é analógico.

Se o planejamento for de longo prazo, portanto, que ultrapasse mandatos políticos, o País terá um caminho permanente a ser trilhado.

Não trabalhar na produtividade, não investir em ciência e tecnologia, não diminuir o tamanho do Estado, não reformar o executivo, legislativo e judiciário, não eliminar desperdícios, não qualificar a mão de obra, enfim, não ter um ambiente de negócios seguro e moderno, tudo isso, entre outras tantas providências, remeterá somente para um caminho, o mesmo trilhado até agora: para reduzir um encargo do setor privado, cria-se outro encargo, ou seja, sempre um novo tributos substituirá outro tributo.

Passou da hora de romper com este modelo. Ataque as variáveis que geram o custo Brasil: é o mínimo a ser feito. Buscar uma solução para o elevado custo da mão de obra pode ser um bom início.

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Mundo pós-pandemia: teremos mais perdedores do que vencedores

Mundo pós-pandemia: teremos mais perdedores do que vencedores

Os cientistas das mais diversas áreas tentam entender, explicar e projetar o que será o mundo pós-pandemia. Entre as várias análises vamos focar na questão econômica e financeira.

Na prática serão acentuadas as características dos perdedores e dos vencedores, sendo que, claramente, o maior contingente será de perdedores.

No contexto mundial, a China, epicentro da pandemia, já se recupera. Um cidadão pode tranquilamente frequentar uma casa noturna coisa impraticável, ao menos legalmente, em muitas partes do mundo.

O fato de ser um país industrializado, a China não sofre de maneira contundente os mesmos desafios de países, que, por exemplo, têm matriz econômica alicerçada no setor terciário da economia (comércio e serviços). Será um dos poucos países a operar no azul do ponto de vista do crescimento econômico: números mais recentes do Fundo Monetário Internacional apontam para alta de 1,9% sobre o ano passado. Sem dúvida são vencedores.

a Europa vive outra realidade. Na França, Paris por exemplo, fechou bares. Na Espanha, Madri, adotou quarentena parcial e o Reino Unido passa a impor novas restrições aos cidadãos. Perdem neste momento. Isso só para citar alguns exemplos.

E o Brasil? Aqui a pandemia encontrou um País reconstruindo sua matriz econômica. As premissas econômicas para sustentar o crescimento de longo prazo não foram levadas a efeito em sua plenitude. A reforma da previdência foi início, as demais reformas estruturais, com privatizações, enfim, o ajuste fiscal estava em curso e havia clara melhoria do ambiente de negócios, apesar dos descompassos políticos. Quanto mais frágil a economia de um País, mais a população perde.

No ambiente microeconômico as grandes corporações, as famílias mais ricas e boa parte do funcionalismo público, conseguiram contornar os efeitos da pandemia. As corporações por terem em seu quadro funcional profissionais capazes para estabelecer estratégias de gestão de crise, sem falar da boa estrutura de capital.

As famílias ricas, estas sempre se dão bem. E o funcionalismo público não teve achatamento de renda e com o distanciamento e isolamento social, reduziram seus gastos, gerando excedentes. São vencedores.

Na outra ponta perdem os empreendedores de pequenos e médios negócios, a classe média e a classe mais baixa. Esta última, se recebe o auxílio emergencial, contorna os efeitos da pandemia, mas a realidade que se avizinha é cruel: o auxílio tem prazo de validade, e o número de miseráveis crescerá.

Já as empresas pequenas e médias, sem capital de giro ou fecharam as portas ou se endividaram. Convivem com estrutura de capital precária. E a classe média brasileira, com a falta de educação financeira, adotando padrão de vida muitas vezes incompatíveis com sua renda, não tinham excedentes financeiros, também podem ser consideradas perdedoras.

Em resumo: como em outras crises sempre haverá perdedores e ganhadores, mas a pandemia potencializou o número de perdedores, indicando problemas sociais gravíssimos que exigirá, de todos, sem distinção, ações para mitigar tais efeitos. Fica a análise e o alerta.

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Crise hídrica em Bauru: esforço multidisciplinar

Crise hídrica em Bauru: esforço multidisciplinar

A população bauruense sofre com a crise hídrica, devido a estiagem prolongada, afetando diretamente o nível da água do Rio Batalha que fornece água para 38% da população, atingindo diretamente cerca de 140 mil bauruenses.

Do nível ideal de água, que seria de 3,20 metros, o Rio Batalha está com nível abaixo de 1,40 metro. Isso limita a captação de água, e evidentemente que fornecimento passa a ser precário.

Mesmo tendo em mãos o Plano Diretor de água, cuja elaboração custou aos cofres do DAE de Bauru R$ 1,3 milhão e foi realizado há 6 anos, em 2014, pouco avançamos. O Plano apontava investimentos na ordem de R$ 256 milhões para cumprir todo processo de captação, reserva e distribuição de água.

O que mais chamou a atenção quando o plano foi apresentado é que a cidade desperdiçava 48,7% da água que tratava. Evidentemente que o investimento estimado não seria realizado no curto prazo, mas, insisto, passados 6 anos não fizemos a lição de casa na magnitude necessária.

O desperdício continua e a reservação não avançou. Mais recentemente, o ano passado, o DAE conseguiu autorização da Câmara Municipal para destinar R$ 12 milhões do Fundo de Tratamento de Esgoto, visando realizar uma série de investimentos, e passado mais de um ano, a constatação é que pouco ou quase nada foi efetivamente entregue.

O DAE possui geração de caixa constante, algo muito desejado pelos investidores. também tem em suas mãos o poder de desligar o fornecimento de água quando há inadimplência. É certo que pratica tarifas sociais, mas pode ser considerado a bola de prata da gestão pública municipal. Em resumo: recursos financeiros não faltam, tampouco faltam recursos humanos, ao menos em termos de quantidade.

Esta autarquia sofreu sim com a decisões políticas com elevada rotatividade em seu comando. De 2017 para cá, portanto, em 3 anos, foram três Presidentes, mesmo um deles sendo interino. Também pode ser considerada um abrigo para servidores comissionados, os quais, nem sempre possuem experiência técnica suficiente para oferecer a Autarquia e por consequência à população uma prestação de serviços de qualidade.

O diagnóstico é este: o DAE precisaria ser reinventado e não foi, e vejam que ainda há uma série de dúvidas quanto a sua real capacidade em coordenar o término da Estação de Tratamento de Esgoto, e mais ainda, capacidade em gerenciar a mesma após seu término.

Por tudo isso, projetando o médio e longo prazo, com as discussões dos candidatos a Prefeito, possivelmente teremos um novo horizonte que aponte o melhor caminho, tanto na eventual reestruturação como até a discussão de um eventual modelo de privatização.

E no curto prazo? Não há como equacionar a falta d´água. Precisa sim remediar. Por isso, é imperativo a formação de um Grupo de Gerenciamento de Crise. De ser multidisciplinar, envolvendo técnicos do DAE, representantes do Legislativo Municipal, representantes da sociedade civil organizada ligadas ao setor e ainda convocar Secretarias Municipais que possam auxiliar na tarefa de encontrar meios atender a demanda por caminhões pipa, inclusive ampliando o atendimento emergencial do DAE, e conscientizar parte da população.

Neste prisma a SEBES tem papel importante, pois acessa a população mais carente e pode mapear as demandas. Outra secretaria que pode exercer papel importante é a da Educação, afinal, com o ensino remoto, há contatos diários com as famílias dos alunos e estimular o não desperdício e entender as demandas localizadas, permitirão ações certeiras. Isso sem contar a já anunciada iniciativa de utilizar os reservatórios das escolas para abastecer residências sem água.

A Secretaria de Desenvolvimento Econômico tem interface com empresários e entidades empresariais que podem canalizar esforços visando agilizar processos, evitar superfaturamento e desenhar a logística necessária para o enfretamento da crise.

A velha frase vale nesta hora: se não tem remédio, remediado está. Agora é hora de admitir a dimensão do problema e buscar soluções que reduzam o impacto da falta de água nos cidadãos bauruenses. É hora de verificar quem efetivamente tem capacidade para liderar este processo.

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Reforma tributária: focar no que é possível

Reforma tributária: focar no que é possível

Considerando os atores envolvidos, sem dúvida alguma levar em frente a reforma tributária esperando que haja consenso não é trabalho fácil.

Por mais que eventualmente, o desejo de todos seja não elevar a carga tributária brasileira, por sinal uma das mais altas entres Países emergentes, é certo que setorialmente e até mesmo dentro das classes sociais, alguém perderá para outro ganhar. Além deste fato, há dois ingredientes adicionais na discussão: os tributos estaduais e municipais.

Neste particular o que se vê uma verdadeira colcha de retalhos. Isso tudo tendo ainda uma pandemia a ser combatida que vem consumindo volumosos recursos públicos.

A conclusão é que entre a reforma ideal e a possível, o foco deve ser a reforma possível. Há muitos pontos em discussão tais como: desoneração da folha de salários, créditos e débitos tributários via imposto de valor agregado, substituição tributária, enfim, há uma infinidade de impostos, taxas e contribuições que devem ser analisados em toda sua dimensão.

Um ponto que pode ser atacado e resolver logo refere-se à simplificação tributária. Neste particular há um pequeno grupo de interessados em que a complexidade tributária atual seja mantida. Há muito dinheiro em jogo, contudo, os demais atores desejam e diria mais, esperam que declarar tributos no Brasil seja mais leve, e não precise de um verdadeiro arsenal de profissionais trabalhando o tempo todo só para atender a legislação vigente.

Há ainda elementos novos a serem considerados, como a ampliação dos programas de transferência de renda. Além das famílias já cadastradas no Bolsa Família, a pandemia atual fez o governo descobrir que mais de 20 milhões de brasileiros eram praticamente invisíveis. Não possuem quase nada formal e agora estão cadastrados e recebendo o auxílio emergencial.

Por sinal este fato passou a ser sensível ao governo Federal, pois está ligado diretamente ao crescimento da popularidade do presidente Jair Bolsonaro, forçando a equipe econômica a gastar energia na busca de uma solução.

De alguma rubrica do orçamento terá que sair os recursos, e a reforma tributária é colocada como moeda de troca. Perda total de foco, inclusive, com sinalização de criação do tributo sobre transações digitais.

Observaram que neste particular a discussão da reforma saiu da esfera técnica e foi totalmente politizada. Não que as reformas necessárias ao País não sejam levadas a efeito nas discussões políticas, mas fica desfocada quando envolve interesses eleitorais.

Insisto: focar no que é possível é melhor do que focar na reforma ideal. O pior que pode acontecer, e tudo indica que será este caminho, é adiar a discussão da reforma. Aí perdem todos, infelizmente.

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Recuperação econômica: na sopa de letras surgiu o “K”

Recuperação econômica: na sopa de letras surgiu o “K”

Muitas teses de como se dará a recuperação econômica mundial, e em especial a brasileira, têm sido defendidas. Eu mesmo, aqui neste espaço, já tratei do tema.

Além de muitas análises e projeções, temos o que podemos denominar de verdadeira sopa de letras. Não bastassem o “V”, “W”, “U”, agora temos o “K”.

Vamos rememorar alguns conceitos até chegarmos ao “K”. Uma tese é que devido a pandemia a recuperação econômica em muitos Países, se dará em “V”. Houve queda acentuada da atividade econômica, mas a geração de riquezas voltaria com vigor muito rapidamente.

O “W” indica que o desempenho econômico caiu, isso é verdadeiro, bateu no fundo, voltaria a crescer, mas uma segunda onda, derrubaria novamente os indicadores de atividade econômica, voltando a crescer em seguida. Neste cenário quem sobreviveu a primeira onda, sofreria muito na segunda onda, podendo não suportar as consequências da crise.

O “U”, para mim o cenário até agora mais provável, indicaria queda na atividade econômica e recuperação muito lenta da economia.

Com o surgimento da leitura de que o “K” representaria melhor este momento da economia mundial, nos fez refletir sobre a não uniformidade no comportamento dos setores da economia e dos agentes econômicos como um todo. Nesta tese a economia despencou, e a recuperação se dará em duas dimensões: os vencedores, representados pela perna ascendente da letra, e os perdedores, no caso representados pela perna descendente do “K”.

De fato, a pandemia pegou cada País um determinado momento econômico. Alguns Países estavam com a economia consolidada, sustentada, e podem ter recuperação mais rápida e diria, uniforme, com a letra V. Outras economias mais debilitadas, poderiam operar em “W”. Alguns Países, como o Brasil, com dimensão continental e matriz econômica diferente nas várias regiões, podem se recuperar em “U” ou “K”.

Independentemente da leitura sobre o comportamento da economia uma coisa é certa: se não ocorrer uma segunda onda da Covid19, como cogitada, por exemplo, no Reino Unido, podemos afirmar que o pior ficou para trás, no primeiro semestre. Isso posto, teremos sim no pós-pandemia vencedores e perdedores, e as perspectivas positivas de longo virá da capacidade de cada País, em especial o Brasil, de focar no ajuste fiscal, demonstrar que é possível fazer com que a economia opere no equilíbrio e acima de tudo, que há estratégia para que, mesmo no longo do tempo, as coisas voltem ao “normal”.

Na verdadeira sopa de letras, mais uma para nossa reflexão.

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Retomada da economia: foco na política fiscal

Retomada da economia: foco na política fiscal

Pelos recentes números do desempenho econômico brasileiro é possível concluir que o efeito mais agudo da pandemia na atividade econômica brasileira ficou para trás.

O tombo de 5,9% no Produto Interno Bruto brasileiro na comparação entre o primeiro semestre deste ano com idêntico período do ano passado, puxado principalmente pela queda de 9,7% no PIB do segundo trimestre, não se repetirá no segundo semestre.

Mesmo com esta constatação, o ano do ponto de vista econômico está perdido. Fecharemos 2020 com queda expressiva na geração de riqueza, retrocedendo cerca de 10 anos. Como a população continuou crescendo neste período, infelizmente, na média, estamos mais pobres.

Voltemos ao bom desempenho recente da economia. O que explica a retomada das atividades econômicas? Parte da melhoria das vendas tem explicação na ampliação do consumo das famílias.

Mesmo com a queda no nível de emprego e achatamento de renda do trabalhador, o auxílio emergencial de R$ 600,00 por pessoa e para algumas famílias, dependendo do arranjo, este valor foi concedido a dois e até membros do núcleo familiar, fez como que o consumo dos produtos básicos alimentícios, passando por material de construção e até mesmo eletroeletrônicos, crescessem.

Outra justificativa vem dos baixos preços de produtos supérfluos, atendendo a demanda reprimida no período.

Sendo verdadeira esta leitura, é fato que este movimento dos consumidores tem prazo de validade. Tanto a demanda reprimida como o auxílio emergencial perderão força daqui para frente. A primeira porque não é renovada, a segundo porque o valor caiu pela metade e não será permanente.

Assim podemos concluir que há um certo “artificialismo” na geração de riqueza. Quando avaliamos a sustentação do crescimento no longo prazo, fica mais que comprovado que a questão está ligada a confiança dos agentes econômicos. A economia gera riqueza com a volta dos investimentos produtivos. Estes investimentos serão aportados quando o risco for baixo.

Para isso é preciso um ambiente econômico favorável. Os investimentos geram emprego, que movimentam o consumo das famílias via produção e não simplesmente pela transferência de renda promovida pelo setor público.

Os efeitos da política monetária já se esgotaram e juros baixos atingirão mais fortemente setores de bens duráveis e imobiliário. Resta somente focar na política fiscal. É a austeridade fiscal que garantirá a retomada da confiança na economia brasileira.

Por este motivo é imprescindível que os gastos públicos sejam controlados com mão firme reduzindo o déficit público, estabilizando a relação Dívida Pública e Produto Interno Bruto.

Já seria um bom início se o governo Federal tivesse prática uniforme: o desgaste diário do Presidente Bolsonaro com a equipe econômica de Paulo Guedes tira o foco, não nos remete a um caminho seguro.

Ainda há esperança no ar, afinal, mesmo com artificialismo econômico, está mais que comprovado que potencial econômico brasileiro é enorme, e se o governo focar no que é necessário, poderemos não somente driblar a crise como alicerçar o modelo econômico que nos leve a um porto seguro.

Reinado Cafeo é economista e presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB.

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